No jargão policial, “puxar a capivara” significa consultar a ficha criminal e os antecedentes de alguém que está na alça de mira de uma investigação ou ação policial. Colocado contra a parede nas duas últimas semanas pela exposição das relações íntimas e financeiras de Flávio Bolsonaro com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, o comando da campanha do PL à presidência encontrou na demissão do policial militar e dublê de publicitário, Marcelo Lopes, a rota de fuga. Sem deixar que se criasse vácuo no posto, logo apresentaram o nome do substituto: Eduardo Fischer, ex-top 3 do mercado privado de propaganda nos anos 1990 e 2000. Mas, ainda que amigos do ambiente das delegacias de polícia e dos batalhões de polícia, ninguém no clã dos Bolsonaro se lembrou de puxar a capivara de Fischer. Ela é velha, pesada e é um criatório de sarnas que irão provocar faniquitos de agonias e coceiras nos próximos dias, enquanto a candidatura presidencial se mantiver de pé.
Em 2018, formou-se no mercado publicitário de São Paulo uma entidade denominada “União dos Ex-funcionários da Fischer América” que chegou a representar 150 profissionais que trabalharam na agência do novo marqueteiro de Flávio Bolsonaro e ficaram sem salários, não receberam benefícios sociais e nem multas trabalhistas quando a empresa simplesmente mudou de nome, de razão social e de controlador do dia para a noite. Até hoje, essas dívidas rolam no mercado trabalhista paulista e dão dores de cabeça a Eduardo Fischer. Um ano antes, em 2017, ele chegou a ser pré-qualificado para se converter num dos publicitários que atenderiam à conta da Secretaria de Comunicação da Presidência da República sob o comando de Michel Temer (os dois são amicíssimos). Contudo, a eclosão do escândalo da gravação de Temer determinando ao empresário Joesley Batista que mantivesse a ajuda que estava dando ao ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, preso naquela ocasião, tirou Fischer da conta da Secom/PR. Afinal, a Fischer América, nome da agência do novo homem do marketing do PL, ganhava escala no mercado nacional porque se tornara uma espécie de “house agency” da JBS. Tomado pela ira conta o empresário que o gravou, Temer afastou-se de Eduardo Fischer. Já se recompuseram, porém nada indica haver dedaço do ex-vice decorativo de Dilma Rousseff no desembarque do publicitário na campanha em combustão de Flávio Bolsonaro.
Entre os picos e os vales do mercado privado de propaganda e marketing, em 2006, Roberto Justus (publicitário que não deixa de ter seus rolos – inclusive uma relação muito próxima com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do liquidado Banco Master) escreveu um livro sobre sua própria vida. A ideia de Justus era falar de seus dois casamentos com as apresentadoras Adriane Galisteu e Eliana. Porém, o ex-sócio não se furtou a falar de Fischer. “Lembro até hoje a última frase do Eduardo Fischer, depois de meses de negociações terríveis e desgastantes”, registrou ele no livro “Construindo uma vida”. E prosseguiu, relatando o que o sócio teria dito: “Agora que vamos competir no mercado, eu vou te destruir”. Justus, que estava longe de ser o santo na denominação da Fischer&Justus Publicitários Associados, ainda escreveu: “Fischer tinha fama de irresponsabilidade, tagarelice e leviandade”. Em meio à crise de imagem, às mentiras que são reveladas por todos os lados na campanha de Flávio Bolsonaro, tudo o que ele não precisa ter a seu lado é um marqueteiro com fama de tagarela, leviano e irresponsável.
(Com informações de Rodrigo Viana e Luís Costa Pinto)