“Se beber, não dirija”, diz uma velha campanha, preocupada com os altos índices de mortes no trânsito causadas pela atitude irresponsável de pessoas ao volante depois de ingerirem álcool. E, se beber detergente Ypê, qual seria o perigo? Se a beberagem se deu em função de política, o perigo principal em ano de eleição é votar.
Nas redes sociais, as pessoas começaram a brincar diante do ato estapafúrdio de pessoas que, de fato, passaram a beber detergente Ypê depois que a Anvisa informou que um determinado lote do produto estava contaminado por uma bactéria perigosa. Os donos da marca são bolsonaristas e parecem ter doado altas somas para a campanha de Jair Bolsonaro. Logo, a marca é identificada por esse público como “de direita” e, como a Anvisa é um órgão federal vinculado ao Ministério da Saúde, os cidadãos identificados com o líder autoritário acabaram por tomar as dores da marca e começaram a defendê-la, como se ela estivesse sendo injustiçada pelo governo e a bactéria não representasse risco algum ou simplesmente não existisse.
É mais um episódio de negacionismo científico, tal como vimos no período da pandemia, com a negação da covid-19 e com as soluções anticientíficas por parte de quem chegou a acreditar que o vírus pandêmico não causaria mais do que uma gripezinha.
Evidentemente, esse ato de negacionismo anticientífico sustenta-se em algo muito mais profundo do que a ignorância em relação à ciência. Há também a ignorância em relação à estrutura do Estado e a sua diferença com o governo. Podemos falar de um “negacionismo do Estado”, uma estrutura apagada na percepção desses cidadãos.
É essa população que não sabe a função do “Estado”, que o confunde com o “governo”, que trata autarquias como a Anvisa como “coisa do PT”. Lembrar que a Anvisa é uma autarquia federal, ou seja, que ela faz parte da administração pública ligada ao governo, mas possui autonomia administrativa e não se submete a pressões e interesses políticos, justamente, porque atua no interesse público é algo importante.
Se é preocupante que haja cidadãos que agem de modo tão estarrecedor, bebendo detergente e fazendo mal a si mesmos, além de estimularem que outros também o façam, é ainda mais chocante ver os motivos torpes pelos quais as pessoas têm coragem de fazer mal a si mesmas e, além de tudo, paguem um mico imenso como imbecis espalhando sandices pelas redes sociais.

Infames e ridículos
Porém, o problema é ainda mais complexo. Há alguns anos, candidatos a cargos políticos se valeram de uma estratégia de capitalização na esfera pública que os levou ao poder. De Michel Temer a Jair Bolsonaro, passando por Janaina Paschoal, Kim Kataguiri, Daniel Silveira e toda uma leva de oportunistas políticos produziram aquilo que chamei de uma verdadeira “mutação política” pela qual os valores “trágicos” e “heróicos” da política foram derrubados num cenário de farsa.
O golpe de 2016 escancarou esse caminho, que já estava sendo aberto desde 2013 no Brasil com os primeiros sinais de agitação fascista. Minha tese no livro Ridículo Político (Record, 2017) era a de que uma “cena” política montada como se fosse um teatro de horrores acabava por capturar atenções e que a percepção disso colocava todos em estado de estupor, verdadeiramente chocados e, desse modo, manipuláveis.
Michel Foucault disse que os discursos “grotescos, infames e ridículos” causavam um efeito de poder. Que a desqualificação do locutor, por si só, provocava esse efeito. O poder sempre foi o objetivo de Calígulas, Mussolinis e Hitlers, assim como de todos os tiranos e fascistas da história, que sempre se valeram das cenas estupidificantes para se promover diante do público atônito.
Agora é o povo que assume o lugar do grotesco, do infame e do ridículo. Levado pela oportunidade de fazer cena, os bebedores de detergente – que, um dia, rezaram para pneus e também tentaram contato com extraterrestres usando telefones celulares como antenas, que acreditaram em mitologias barthesianas tais como “mamadeira de piroca” e “kit gay” e que votaram nos piores políticos com promessas de destruição – passam a exercer um novo protagonismo. O cidadão quer um lugar para chamar de seu.
As redes sociais aceleraram aquilo que Theodor Adorno e Max Horkheimer chamaram de “imbecilização planetária”. As pessoas colocam sua própria saúde em risco, acreditando que se tornam poderosas, pois sabem que seus atos produzem efeitos de poder. Mas sabem também que podem morrer e, no fundo, há duas alternativas em seu desejo. De um lado, querem de volta algo que deram a seus eleitos, a fama, mesmo que ela seja um misto de papelão e burrice. Por outro, querem sofrer e, quem sabe, exercer o instinto de morte que justifica suas existências infelizes.