Entre os 94,3 milhões de leitores que o país contabilizou entre o final de 2024 e o início de 2025, de acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, certamente estão alguns dos excelentíssimos magistrados que compõem a 9ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais.
A menos que todo aquele falatório para absolver do crime de estupro um homem de 35 anos que vivia com uma criança de 12, sob o argumento de ser uma “relação análoga ao matrimônio”, resulte de um prompt de I.A. (como o texto da decisão), não é possível gastar tanto português para justificar o injustificável sem passar os olhos por alguns tomos.
Sendo o desembargador Magid Nauef Láuar, relator do caso, o responsável pelo blábláblá, seria interessante que ele se debruçasse sobre Triste Tigre (Ed. Amarcord). Sem dúvida, o livro iria impressioná-lo tanto pela forma quanto pelo conteúdo iconoclasta de sua autora, a escritora, professora e tradutora francesa Neige Sinno.
Memória autobiográfica
A obra inicia com Neige situando as lembranças dos estupros cometidos por seu padrasto nos lugares em que as violências ocorreram. A primeira vez, no quarto que ela dividia com a irmã caçula.
“São as mãos dele em cima de mim que me acordam. Depois a voz, quando abro os olhos, ele já está falando, em voz baixa, não para de falar”, descreve ela. “Quando morávamos nesse apartamento, eu tinha sete anos, não entendi o que estava acontecendo, mas já naquele primeiro momento tive a sensação de que era uma coisa grave e terrível. Ele falava como um domador fala com um cavalo manso mas selvagem, um cavalo que precisa ser controlado para não escapar. Ele falava como se nada daquilo devesse me assustar…”.
Dos sete aos 14 anos, Neige resgata outros cenários. Um porão. Os fundos da loja onde o padrasto trabalhava. O quarto em que ele dormia com a mãe da menina. Um desses episódios ocorreu no mesmo dia em que a família completa – ela, a irmã, fruto de um relacionamento anterior, e dois irmãos menores, filhos do casal – participou de uma sessão de fotos num estúdio da cidadezinha onde residia, no interior da França.
“Algumas horas depois dessas fotos, ou antes, ele me arrastou para um cômodo afastado e eu fiz sexo oral nele. Nem precisei me abaixar, era só ele de pé e eu na frente, já que eu mal chegava à sua cintura.”
É preciso lidar com a náusea para seguir com a leitura de Triste Tigre. No livro, Neige investiga o que se passa na cabeça de pessoas que praticam o mal deliberadamente, a partir de sua própria experiência, de personalidades como a autora britânica Virginia Woolf (abusada pelo irmão quando era criança) e personagens literários como Lolita, do romance homônimo de Vladimir Nabokov.
Best-seller traduzido em mais de uma dezena de idiomas, Triste Tigre mescla memória autobiográfica e ensaio, numa narrativa que examina ao limite, de maneira distante e objetiva, a mente de um homem que viola uma criança. “Com as vítimas é fácil, todos nós podemos nos colocar no lugar delas”, escreve Neige. “O agressor, por outro lado, é uma história diferente.”
Vencedor do Goncourt des Lycéens e do Prix Femina, duas das principais premiações literárias francesas, do italiano Strega European Prize, entre outros prêmios, Triste Tigre entrou no ranking de dez livros mais vendidos da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty –, em julho de 2025, após a participação da autora na programação principal.

Na ocasião, Neige afirmou que jamais pensou em escrever um testemunho clássico sobre estupro. Segundo a autora, a obra só existe porque ela encontrou uma maneira particular de abordar o tema, partindo de suas reflexões e do que acontece com as crianças que sobrevivem a uma violência sexual.
Alguns dias depois, numa conversa que tivemos em uma livraria em São Paulo para o lançamento do livro, Neige enfatizou esse objetivo, destacando os números da violência contra crianças e mulheres no Brasil. Dados da Unicef mostram que, entre 2021 e 2023, foram mais de 164 mil registros de estupro de vulnerável, violência que, conforme a instituição, ocorre principalmente contra meninas (ainda que meninos também sejam vítimas), dentro de casa, cometida por pessoas conhecidas ou da família.
Se não protege uma criança do estupro, a classe social, a cor da pele, o lugar onde vive são fatores que tornam algumas mais vulneráveis do que outras. Esse foi o caso de Neige Sinno. Esse é o caso da mineira de 12 anos.
Vulnerabilidade extrema
Nascidas no fim da década de 1970, Neige e a irmã Rose são filhas de dois jovens meio hippies, que viviam em situação precária no interior da França. Aos 28 anos, já separada do pai de suas filhas, a mãe de Neige decidiu fazer um curso de formação de guias de montanha, onde conheceu um rapaz de 24 anos, “alto, atlético e simpático”.
Após um rápido namoro, casaram-se e tiveram mais um menino e uma menina. Sem formação, a mãe de Neige se virava como faxineira e o padrasto, em atividades que iam da prática de montanhismo a trabalhos braçais.
Mais de uma década depois, quando Neige, finalmente, contou à sua mãe o que tinha acontecido e denunciou o padrasto, ele justificou a violência como uma tentativa de se aproximar da arisca enteada. Durante os sete anos que a estuprou, ele também alegava tratar-se de uma introdução sexual e que, em outros tempos, as relações entre crianças e adultos aconteciam “sem problemas”, mencionando Petrarca e Dante Alighieri.
“A maioria dos criminosos inventa para si mesmo histórias que tornam aquilo que eles vivem tolerável. A maioria dos pervertidos diz a si mesmo que aquilo que eles sentem e fazem tem como origem o amor”, escreve a autora.
O principal motivo pelo qual Neige acredita ter permanecido tanto tempo em silêncio era a total vulnerabilidade em que a família se encontrava. “Se ele [o padrasto] fosse preso, nós não teríamos mais nenhum recurso, cairíamos na miséria, quatro crianças e um salário de faxineira, a conta era fácil de fazer”, descreve. Ao mesmo tempo, o padrasto costumava ameaçar Neige, dizendo que sua mãe era uma “mulher frágil, desajustada, incapaz de sobreviver sem ele, em completa dependência econômica e emocional”. “Eu estaria disposta a lhe infligir esse mal?”.
Por correr em segredo de justiça para a proteção da criança, o processo da garota mineira não traz detalhes. Tampouco uma menina de 12 anos tem conhecimento e capacidade cognitiva para articular tantos meandros.
Mas sabemos ser uma família pobre, morando numa zona rural. Ao defender o namorado, a vítima argumentou que ele a levava para passear no shopping e costumava dar uma cesta básica a sua mãe – que não via nada de mal no casal, pois também teria iniciado sua vida sexual na infância. A garota teria dito ainda que ele foi o primeiro com quem se relacionou a lhe tratar bem, dando indícios de um passado ainda mais aterrorizante.
“Como uma menina assim pode atrair o olhar de um homem? O que ele vê quando olha para ela?”, questiona-se Neige Sinno, ao descrever a si mesma na infância, uma “loirinha de grandes olhos verdes, sorriso travesso, cabelo sempre desgrenhado, como uma criança que cresceu longe da civilização”.
“Inocência é o que há para ver, a mais pura inocência. E o que atrai talvez seja simplesmente a possibilidade de destruí-la”, conclui a autora.
Sobre isso, o desembargador Magid Nauef Láuar talvez saiba mais do que a gente imagina (*).
(*) Na sexta-feira (27/02), o desembargador Magid Nauef Láuar, do TJMG, foi afastado pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça).