Há momentos em que a crise nasce de uma escolha. O ministro do STF, Dias Toffoli, não deveria, jamais, ter tomado decisões no caso do banco Master. Não por clamor popular, não por pressão externa, mas por um princípio elementar de prudência institucional. Quando um ministro que manteve negócios financeiros com o grupo de um dos personagens centrais do caso assume a relatoria, o problema não é apenas jurídico. É simbólico. E símbolos, na República, importam.
A população desconhecia esses vínculos dos dias de Tayayá. O ministro, não. Ainda assim, permaneceu. Ao fazê-lo, arrastou o Supremo para dentro de uma turbulência que poderia ter sido evitada com um gesto simples: o afastamento voluntário do caso antes de qualquer suspeita. O custo agora é coletivo.
Com André Mendonça como novo relator, os problemas são de outra ordem. Ele sinaliza “normalidade” ao ampliar o número de peritos para examinar os cem celulares e aparenta devolver protagonismo técnico à Polícia Federal. Essa é a superfície. Por dentro, Mendonça levanta uma cerca: proíbe o compartilhamento de informações com instâncias superiores da Polícia Federal, cujo nome forte é indicado de Lula. Não é apenas um ato processual, mas um recado. Em Brasília, recados raramente são inocentes. Nas entrelinhas, há quem leia ali uma advertência a Andrei Rodrigues. Mendonça estaria associando o delegado-geral aos vazamentos que atingiram Toffoli.
O receio, hoje, é de um desalinhamento mais amplo entre governo e STF em pleno ano eleitoral. Mendonça tem nas mãos dois processos de alto poder explosivo: Master e INSS. No segundo, a menção a um dos filhos do presidente Lula funciona como espada suspensa sobre o tabuleiro eleitoral. Vazamentos já circularam ligando Fábio Luís Lula da Silva ao caso. Indícios iniciais ainda distantes de qualquer suspeita consistente, o que importa pouco no ringue da política em ano de urnas quentes. O ministro decidirá o ritmo – e, em política, ritmo é narrativa.
Algumas camadas ajudam a compreender e complicar o momento.
Primeiro: já são várias reportagens relatando reações semelhantes de Lula em relação a Toffoli. O presidente teria dito que Toffoli fez lambança e deveria ser afastado do caso Master e, talvez até, do Supremo. Tudo em off, mas com um detalhe: se o Planalto considerasse estratégico blindar Toffoli, o teria feito de forma imediata e inequívoca, publicamente e em on. O silêncio também comunica.
Segundo, como já enfatizado: a crise foi internalizada pelo próprio Supremo. Toffoli poderia ter evitado isso antes mesmo de aceitar o caso.
Terceiro: para a opinião pública, governo e STF caminham interligados nos anos pós-Bolsonaro. Uma fissura na Corte ecoa no Planalto. A estratégia visível é de distanciamento. Mas há um limite delicado entre prudência e abandono.
Dentro do Supremo existe memória. Há ministros que recordam o papel da Corte na estabilização do processo eleitoral. O sentimento de que cumpriram seu dever e foram decisivos para a eleição de Lula não é pequeno. Ingratidão é palavra que circula, mesmo que não seja dita em voz alta.
Quarto: enquanto o Planalto tenta manter uma distância sanitária do Supremo, parte da militância digital permanece emocionalmente ancorada no 8 de Janeiro e na defesa irrestrita dos ministros que atuaram naquele episódio (sobretudo Alexandre, mas Toffoli por tabela). A estratégia institucional e o impulso político nem sempre coincidem.
E há o quinto ponto, talvez o mais sensível: o caso Master é volumoso, envolve cifras altas e personagens de peso. Quem ocupa as ruas hoje denunciando a corrupção? O MBL de um lado, bolsonaristas de outro. Se a esquerda não disputar essa arena, corre o risco de cristalizar a imagem que seus adversários cultivam: a de complacência seletiva com a bandidagem.
O vento sopra forte e favorece candidaturas antipetistas que se alimentam de instabilidade. A forma como o Planalto administrará essa travessia pode definir mais do que um ciclo de notícias, pode influenciar o clima da próxima eleição.
Um divisor possível é um novo depoimento de Vorcaro, em CPI, comissão ou na polícia. Dependendo do tom, das revelações ou das omissões, ele pode reorganizar o debate público nas semanas seguintes.
O país respira em suspenso. E, como quase sempre, a política decide no silêncio dos gestos, tanto quanto no ruído das manchetes.