Por que buscar apoio do centrão mesmo sabendo com quem está lidando?

Mais do que pureza ideológica, o que está em jogo no tabuleiro eleitoral é a própria democracia
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva nunca foi um político ingênuo. Quem ainda insiste nessa caricatura, seja para endeusá-lo, seja para demonizá-lo, ignora a própria história recente do Brasil.

Lula é, antes de tudo, um operador político que compreende a natureza real do poder num país estruturado sobre um presidencialismo de coalizão, fragmentado, fisiológico e profundamente marcado por interesses regionais.

Em 2026, diante da ameaça de consolidação de um polo bolsonarista reorganizado sob a liderança de Flávio Bolsonaro, o presidente opera dentro da lógica que sempre definiu as grandes vitórias eleitorais no Brasil: ampliar o campo de apoio, dividir o adversário e, se não for possível conquistar aliados, ao menos neutralizá-los.

A busca por alianças para além do campo progressista não é um desvio ideológico, mas um movimento pragmático de sobrevivência democrática e de disputa concreta de poder.

Há quem, dentro do próprio campo progressista, torça o nariz quando Lula dialoga com setores do chamado centrão. O desconforto é compreensível. Trata-se de um agrupamento político historicamente associado à falta de compromisso programático, à troca de apoio por espaços no Estado, à lógica do “governismo” que se adapta a qualquer projeto desde que preservados seus interesses.

Mas ignorar esse bloco não o faz desaparecer. O centrão é, hoje, peça estruturante do Congresso Nacional, controla fatias significativas do orçamento via emendas, preside comissões estratégicas e exerce influência direta sobre governadores e prefeitos. Governar o Brasil sem dialogar com esse núcleo é simplesmente inviável. Disputar uma eleição nacional ignorando-o é suicídio político.

Feudos estaduais

Lula conversa com setores do MDB com o objetivo de atrair o partido para uma coligação formal, inclusive com possibilidade de indicar o vice na chapa. Ao mesmo tempo, conversa com outros partidos que já estiveram aninhados nos braços do bolsonarismo em campanhas passadas, mas que, agora, não se entusiasmam com a candidatura de Flávio.

O movimento de Lula não é, necessariamente, o de trazer todos esses partidos para uma coligação com petistas e para subir no palanque. O cálculo pode ser mais sofisticado: impedir que eles novamente se alinhem de forma orgânica e disciplinada ao bolsonarismo. Em política, a neutralidade pode ser tão valiosa quanto o apoio explícito.

Se PP, União Brasil, Republicanos e PSD não embarcarem integralmente na candidatura de Flávio Bolsonaro, o campo conservador perde capilaridade nacional, perde tempo de televisão e, sobretudo, perde o acesso unificado às máquinas estaduais e municipais controladas por esses partidos. Fragmentar o adversário é uma forma clássica de enfraquecê-lo. Lula já fez isso antes e sabe que, em eleições polarizadas, a diferença, muitas vezes, está menos na adesão entusiasmada e mais na ausência de coesão do outro lado.

Há também um dado estrutural que não pode ser ignorado: a eleição presidencial no Brasil tem uma engenharia regional. O centrão e boa parte da direita democrática brasileira não funcionam como blocos ideológicos homogêneos; eles operam por feudos estaduais.

Governadores, lideranças locais, caciques regionais têm interesses específicos, muitas vezes desvinculados da narrativa nacional da polarização. Ao oferecer diálogo, espaços administrativos e participação na formulação de políticas públicas, Lula cria fissuras nessa estrutura. Não se trata de concessão gratuita, mas de negociação.

A alternativa seria entregar esses partidos de bandeja ao bolsonarismo, permitindo que o adversário construa uma frente ampla conservadora com base parlamentar robusta e presença territorial avassaladora.

Câmara dos Deputados
Votação no Congresso Nacional (Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados)

Risco de traição

Outro ponto central é que o pragmatismo lulista não significa abandono de agenda. Lula compreende que programas sociais, política industrial, defesa da soberania e reconstrução institucional dependem de estabilidade política mínima. Um presidente isolado, cercado por um Congresso hostil, se torna refém permanente de chantagens legislativas ou, pior, da paralisia.

A governabilidade não é um capricho, é condição para executar qualquer projeto transformador. O campo progressista precisa decidir se prefere a pureza da marginalidade ou a complexidade do poder real. Lula escolhe a segunda opção.

É evidente que essa estratégia traz riscos. O centrão não é aliado confiável por definição e já deu inúmeras provas disso. O MDB, então aliado formal, se transformou no protagonista do golpe contra Dilma Rousseff. A permanência deles na base depende da manutenção de vantagens concretas. Há sempre a possibilidade de traição, de desembarque estratégico no momento mais oportuno.

Mas política é risco calculado. Lula acredita que erro maior seria permitir que o adversário monopolize essas estruturas. Flávio Bolsonaro tentará repetir a fórmula clássica da direita brasileira: unificar o campo conservador, agregar partidos médios e oferecer ao mercado e às elites regionais a promessa de previsibilidade ideológica. Se Lula conseguir impedir essa unificação, já terá alterado significativamente o tabuleiro.

Além disso, o movimento tem dimensão simbólica. Ao dialogar com partidos que, historicamente, não compõem o núcleo duro da esquerda, Lula envia um recado ao eleitorado moderado: sua candidatura não é sectária, não é um projeto exclusivo de militância, mas uma proposta de estabilidade institucional.

Num país ainda traumatizado por tentativas golpistas, ataques às instituições e radicalização permanente, a imagem de amplitude pode ser decisiva para conquistar o eleitor que rejeita extremos. A polarização continuará existindo, mas a construção de pontes amplia a margem de segurança eleitoral.

É importante também reconhecer que o centrão não é composto apenas por caricaturas do fisiologismo. Há quadros técnicos, governadores com base social consistente, prefeitos que administram grandes cidades e precisam de parceria federal. A disputa por esses espaços não é apenas eleitoral; é também administrativa.

Leitura do tabuleiro

Lula sabe que a política pública passa por estados e municípios. Construir alianças significa também garantir a execução de programas, obras, investimentos e políticas sociais, que, no fim das contas, impactam diretamente o cotidiano da população.

O pragmatismo não deve ser confundido com rendição. Trata-se de compreender a correlação de forças existente. O Brasil não vive sob um sistema bipartidário simples, mas sob um mosaico partidário no qual a fragmentação é regra.

Vencer uma eleição presidencial exige matemática política complexa. Se Lula puder atrair setores do centro para sua chapa, melhor. Se não puder, trabalhará para que esses setores não fortaleçam seu principal adversário. Na realpolitik, neutralizar já é avançar.

A história recente mostra que o bolsonarismo cresce quando consegue se apresentar como único polo organizado da direita, enquanto o campo democrático se divide. Ao impedir que partidos médios se alinhem automaticamente a Flávio Bolsonaro, Lula reduz a capacidade do adversário de se apresentar como líder inconteste de um bloco majoritário. O jogo não é apenas conquistar votos; é moldar o cenário no qual esses votos serão disputados.

O debate sobre alianças revela um dilema permanente da esquerda brasileira: governar com quem existe ou esperar que o país se transforme, magicamente, antes de assumir o poder. Lula escolhe operar no mundo como ele é, não como gostaria que fosse. Pode ser desconfortável, pode gerar críticas internas, mas é uma escolha orientada por experiência histórica e leitura fria do tabuleiro.

Em 2026, mais do que pureza ideológica, estará em jogo a definição do rumo institucional do país e da própria democracia. E, para vencer essa batalha, o presidente aposta na velha máxima da política: ampliar quando possível, dividir quando necessário e jamais entregar o comando do jogo ao adversário.

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