O Brasil entende as causas do crime, mas não confia em si mesmo para enfrentá-las

O ponto central está na normalização do rigor como resposta legítima mesmo entre aqueles que reconhecem o caráter social do crime
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A pesquisa recém-divulgada pelo ICL revela um dado que desmonta uma caricatura comum sobre o Brasil contemporâneo. Ao contrário da imagem de uma sociedade movida apenas pelo ódio ou pelo desejo de vingança, a ampla maioria da população reconhece que os assaltos cometidos por jovens armados têm raízes sociais claras. Desigualdade, ausência de oportunidades e abandono estatal aparecem com força na percepção coletiva. Ainda assim, essa compreensão convive com a defesa de punições rigorosas. O paradoxo não está nos números. Está na forma como lidamos com eles.

A ampla maioria dos entrevistados reconhece que há um problema social na origem desses crimes. No entanto, apenas uma parcela menor defende que essa constatação deva orientar respostas predominantemente baseadas em políticas sociais. O grupo majoritário sustenta uma posição ambígua: entende as causas estruturais, mas exige rigor penal. Não se trata de ignorância, nem de incoerência moral. Trata-se de medo.

O Brasil não é um país que desconhece as raízes da violência. É um país que não confia na própria capacidade de enfrentá-las sem recorrer ao castigo como atalho. A punição aparece como uma espécie de garantia emocional em um ambiente marcado pelo medo cotidiano e pela sensação permanente de vulnerabilidade. Mesmo quando se reconhece que a desigualdade empurra jovens para o crime, permanece a desconfiança de que políticas públicas, educação e inclusão sejam capazes de produzir resultados sem a ameaça da força, da prisão ou do endurecimento penal.

Esse medo não é apenas espontâneo. Ele é permanentemente alimentado por discursos políticos que simplificam o problema, por uma cobertura sensacionalista da violência e por uma narrativa pública que associa proteção à repressão. O rigor penal passa a ser apresentado como a única resposta possível diante da insegurança, enquanto soluções estruturais são tratadas como ingênuas, lentas ou desconectadas da chamada vida real. Assim, constrói-se um consenso frágil, mas eficiente: o de que é possível compreender o problema social e, ao mesmo tempo, descartá-lo como horizonte concreto de solução.

Essa desconfiança foi construída na experiência concreta de um país onde o Estado chega tarde, chega mal ou chega apenas para punir. Foi sendo construída na experiência cotidiana de um país em que o Estado falha em proteger, mas nunca falha em punir. Políticas sociais que nunca se consolidaram como política de Estado convivem com um sistema penal expansivo e com um sistema de Justiça seletivo, que opera com pesos diferentes a depender da cor, do território e da renda. A escola falha, o sistema socioeducativo é fragilizado, a justiça é lenta para garantir direitos e veloz para punir corpos específicos. Nesse cenário, a punição passa a ocupar o lugar da esperança.

O dado mais revelador da pesquisa não é a existência de um grupo minoritário que defende respostas violentas ou letais. Esse grupo existe, mas não representa a maioria. O ponto central está na normalização do rigor como resposta legítima mesmo entre aqueles que reconhecem o caráter social do crime. É nesse consenso silencioso que a violência se reproduz, travestida de racionalidade.

A juventude pobre aparece, ao mesmo tempo, como vítima de um sistema injusto e como ameaça a ser contida. Essa ambiguidade sustenta políticas públicas contraditórias e um debate público que raramente enfrenta o problema em sua totalidade. Reconhece-se a desigualdade, mas exige-se punição exemplar. Defende-se a presença do Estado, mas apenas quando ela assume a forma do controle e da coerção.

Essa lógica também se apoia numa premissa raramente explicitada: a de que nem todos estão igualmente sujeitos à punição. O rigor penal se impõe com força sobre alguns, enquanto práticas violentas, ilegais ou predatórias cometidas a partir de posições de privilégio dificilmente são enquadradas como questão de segurança pública. A seletividade não é um desvio do sistema. É parte do seu funcionamento.

A pesquisa do ICL nos coloca diante de um espelho incômodo. Ela mostra que o debate sobre crime e segurança no Brasil não está travado por desconhecimento das causas, mas por um profundo esgotamento da confiança coletiva. Sabemos de onde vem o problema. O que não sabemos, ou já não acreditamos, é como enfrentá-lo sem repetir a resposta que historicamente falhou.

Enquanto políticas públicas forem vistas apenas como instrumentos de punição, e não de proteção, seguiremos presos a esse ciclo. Compreendendo as causas, temendo as consequências e escolhendo, mais uma vez, o rigor como substituto da coragem de mudar as bases do problema.

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