Se o fim do mundo está tão próximo, carnavalizemos a vida

A próxima 5ª feira é um dia chave. A partir dele, tudo poderá ser História (ou não)
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Em 5 de fevereiro de 2026, cessa a validade do Tratado de Redução de Armas Estratégicas, assinado em 1991. Ele marcou o fim da Guerra Fria e reduziu drasticamente os arsenais nucleares.

Nossa geração foi contemporânea daquele 31 de julho, há 35 anos, quando George W. Bush (o pai) e Mikhail Gorbachev olharam à frente de seus próprios tempos sobre a Terra e se comprometeram a fazer as duas nações que lideravam – um ribombante Estados Unidos e uma União Soviética em liquefação – desativarem cerca de 80% das armas e ogivas nucleares existentes no planeta.

Naqueles tempos, o Relógio do Juízo Final ajustou as engrenagens de seu cronômetro para marcar os horários mais distantes da meia-noite (momento em que o mundo acaba): 17 minutos para a 0h.

Criado em 1947 pelo Boletim de Cientistas Atômicos, apenas dois anos depois do lançamento das bombas nucleares em Hiroshima e Nagasaki, no Japão, o Relógio do Juízo Final marcava 7 minutos para a meia-noite ao surgir como uma convenção moderadora universal.

Na última 5ª feira, 29 de janeiro de 2026, apenas 85 segundos nos separavam da “meia-noite” hipotética e convencional de relógio. Às vésperas de o Tratado de Redução de Armas Estratégicas perder a validade fomos colocados na antessala da hecatombe cataclísmica.

Não é preciso ser catastrofista ou pessimista para ficar inculcado com essas nuvens cinza-chumbo que tornam o horizonte perversamente translúcido a ponto de vermos nele miragens de cogumelos de fumaça. Basta ser pragmático e fatalista.

NÚMERO INÉDITO DE GUERRAS E CONFLITOS SIMULTÂNEOS

Na passagem de 2025 para 2026, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha contava 120 conflitos armados no mundo de média para alta intensidade. Eram guerras civis ou disputas transnacionais. O Instituto de Pesquisas de Paz de Oslo, na Noruega, e o Uppsala Conflict Data Program, na Suécia, contabilizavam 61 conflitos envolvendo Estados diferentes – ou seja, guerras de uma nação contra outra. Desse total, 13 delas foram classificadas como “grandes guerras”, onde há mais de 1.000 mortes em combates por ano.

Suecos e noruegueses estão reativando os bunkers antibombas atômicas em seus territórios. Na Escandinávia, as crianças em idade escolar têm treinamento regular para saberem agir em caso de bombardeio russo ou ataque nuclear. Treinam a ação em situações distópicas como essas da mesma forma que nossas crianças e adolescentes treinam a evacuação das escolas em caso de incêndio.

Assustadora por si, a naturalização da escalada de guerras e conflitos armados no mundo na passagem do réveillon não se deu sob a neblina histórica do sequestro de Nicolás Maduro e sua extração da Venezuela. Ela se deu por meio de uma inédita invasão territorial de país sul-americano por tropas dos Estados Unidos.

Tampouco as previsões foram fruto de análises feitas por baixo das brumas incendiárias da ameaça extorsiva de Donald Trump de anexar a Groenlândia ao território norte-americano, ou da iminente eclosão de um conflito armado inimaginavelmente devastador no Oriente Médio caso o Irã seja atacado em meio a um surto delirante de Donald Trump.

Em um mês, no curso desse janeiro de 2026, pioramos muito do ponto de vista da civilidade e das condições objetivas para a permanência de nossa espécie no planeta. Estamos, afinal, a 85 segundos do Fim do Mundo, de acordo com o relógio criado para medir o tempo que temos até o momento derradeiro da humanidade.

Em 2020, na pandemia, os cientistas que cuidam de ajustar esses ponteiros do juízo final regularam-no para 100 segundos antes da meia-noite. Nos primeiros 60, 90 dias de agressão avassaladora do vírus sobre os cinco continentes, não houve quem não tivesse certeza de que começávamos ali a acertar as contas da passagem por essa criação divina, a Terra, aguardando no limbo celestial a hora de sermos julgados perante Deus e seus arcanjos delegados.

Ou não?

ELEIÇÃO: CHANCE PARA MANTER A ESPERANÇA

Analisada a superestrutura do momento em que vivemos, desçamos à reles infraestrutura de cada um. Aqui no Brasil, as vésperas do Juízo Final chegam justamente em ano eleitoral. Teremos eleição presidencial para decidir se a Democracia segue valendo no país nos dias que nos restam, ou se vamos retroceder ao quinto dos infernos cujas encruzilhadas atravessamos depois de vivermos a Era Trágica dos anos 2016-2022, tempos de Michel Temer e de Jair Bolsonaro à frente de suas quadrilhas em Brasília.

Em três anos, de 1º de janeiro de 2023 para cá, restauramos o ambiente de esperança no país. Vencemos um golpe de Estado que, no ápice do delírio aventureiro dos golpistas, destruiu as sedes dos Três Poderes da República na capital brasileira.

Com percalços, fizemos o Executivo, o Legislativo e o Judiciário abrirem os porões de suas idiossincrasias e conflitos internos e das brigas entre si para que ganhassem lufadas de transparência – só há Democracia onde há transparência, eleições livres, alternância de poder sacramentada pelo voto da maioria e previsibilidade no cumprimento de contratos.

Pegando essa definição de “ambiente democrático”, é impossível dizer que não vivemos sob o império dele: e é por isso que, em meio ao caos lá de fora, aqui dentro temos de celebrar a possibilidade de confirmar nas urnas o caminho escolhido pela maioria dos brasileiros.

O caminho da normalidade, o rumo do crescimento sustentável e do resgate social permanente – que deve se dar mais rápido do que a atual velocidade de retomada imprimida a ele, menos gradual (precisamos de saltos bíblicos nesse resgate) – tem de ser obviamente seguro como a certeza de que urna eletrônica é a maquininha mais revolucionária já criada por um brasileiro depois dos aviões de Santos Dumont.

CARNAVAL, MOMENTO PARA MUDAR TUDO

O mundo não pode acabar antes de o Brasil cumprir a sua sina de ser o ponto de inflexão da tristeza para a felicidade sobre a Terra. E em que momento isso nos parece mais possível de ser verdade, e não mera aspiração? No Carnaval. Claro!

É no Carnaval que nós, aqui, na vida real, e até o elenco estelar de O Agente Secreto no roteiro magistral da ficção de Kléber Mendonça Filho, esquecemos os conflitos universais e também os particulares para viver a eternidade e os sonhos que tínhamos para ela no breve intervalo de quatro dias.

Instagram Pitombeira dos Quatro Cantos
Foto: Instagram/Pitombeira dos Quatro Cantos

Estamos a duas semanas desses quatro dias, ou a 85 segundos da meia-noite no Relógio do Fim do Mundo que carregamos dentro de nós, para decidirmos zerar o jogo todo, abaixar as armas aqui dentro do Brasil e escrever um novo fim para a história de eleições conflituosas e eivadas de ódio, como as duas últimas que realizamos.

Se nos guardávamos para quando o Carnaval chegasse e a partir dele mudarmos tudo, então, a hora da virada chegou. O dia 5 de fevereiro de 2026, quando cessar a vigência do Tratado de Redução de Armas Estratégicas, tomemos uma atitude: vamos estancar a escalada de violências, de agressões e de iniquidades e carnavalizemos tudo para restaurar a esperança no futuro. Em algum futuro, pelo menos.

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