O dia 30 de setembro de 2009 foi, talvez, o mais importante da vida de José Antônio Dias Toffoli. Sabatinado pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, teve seu nome aprovado com um folgado placar e enfrentou o plenário da Câmara Alta com bastante galhardia. Naquele dia, com os votos favoráveis de 58 senadores, foi aprovado com folga de 17 votos para integrar o corpo de ministros do STF.
Toffoli iniciou sua trajetória rumo à Corte Constitucional como advogado da CUT, onde chegou apenas dois anos depois de se formar na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Ato contínuo, foi consultor jurídico do PT de São Paulo e acabou indo parar em Brasília, levado por Arlindo Chinaglia. Foi lá que sua carreira decolou. Conheceu os caciques do partido e atuou em três campanhas de Lula. Sobre ele, diziam que era um jovem brilhante, que conhecia tudo de direito eleitoral.
Em dezembro de 2002, quando Lula venceu sua primeira eleição, Márcio Thomaz Bastos, já então pule de dez para o cargo de ministro da Justiça, convidou dois amigos para um almoço. Ele queria discutir a formação da equipe jurídica que atenderia o governo. Teria que ser profissional, e não partidária.
Os convidados de Thomaz Bastos foram o advogado Carlos Antônio de Almeida Castro, o Kakay, e o então ministro do STF Sepúlveda Pertence. Kakay, que estava passando férias em Búzios, tomou um avião e desembarcou em São Paulo para a conversa que teria Toffoli como tema central. “O Pertence ficou muito impressionado com o desempenho do Toffoli, que defendeu com galhardia as causas do governo eleito no TSE”, lembra Kakay.
Thomaz Bastos disse que queria uma banca técnica para articular a defesa do governo, e não advogados que “vestem camisa vermelha” atuando no TSE. Com a bênção de Pertence, Toffoli chegou à Subsecretaria de Assuntos Jurídicos da Casa Civil da Presidência. “Era uma função muito importante, pois você despacha com o presidente da República todos os dias”, arremata o criminalista. Toffoli foi contratado. Cinco anos depois, galgou mais um degrau ao ser nomeado advogado-geral da União.
Durante sua permanência na Casa Civil e na AGU, esteve na linha de frente das trincheiras do Mensalão. O governo estava enredado num mar de denúncias de corrupção feitas pelo então deputado Roberto Jefferson, um aliado de direita encastelado na presidência do PTB.

Toffoli deu um jeito de sair do meio do tiroteio com o argumento de que “eu defendo o governo, não as pessoas físicas dos acusados”. Enquanto o Ministério Público Federal entrava com ações de Improbidade Administrativa contra os mensaleiros, em 2007, a postura da AGU sob Toffoli foi discretíssima. Em vez de atacar os ex-chefes diretamente, focou na estruturação interna. Em 2008, criou o Departamento de Patrimônio Público e Probidade Administrativa (DPP). Vendeu isso como a profissionalização do combate à corrupção (“a AGU agora vai cobrar quem rouba”).
Se ele não atuou no Mensalão como seus críticos esperavam, agiu para garantir que o governo Lula continuasse operando sem travas jurídicas. Ficou conhecido por defender o caixa do governo com unhas e dentes, derrubando liminares que davam aumentos a servidores ou bloqueavam obras do PAC. Foi apelidado por críticos de “O Advogado de R$ 255 bilhões” (valor que ele teria economizado para a União).
E logo conseguiu convencer o presidente Lula de que estava apto a ocupar a vaga no STF aberta com a aposentadoria de José Menezes Direito, ainda que não tivesse titulação além do bacharelado em Direito e acumulasse duas reprovações em concursos para juiz.
A chegada ao STF
Toffoli entrou na disputa pela vaga no STF como candidato de Lula. O então presidente da República estava agastado com indicações técnicas (como as de Menezes Direito e Joaquim Barbosa); queria alguém com sangue novo, que não se envergonhasse de ter sido advogado do partido. Toffoli parecia ser a escolha ideal.
Mas os problemas não tardaram a aparecer.
A campanha de Toffoli para a nomeação não foi difícil, muito menos demorada. Entre o envio da mensagem presidencial ao Senado e a sabatina, apenas 13 dias se passaram. A aprovação também não foi complicada, embora a sabatina tenha se estendido por sete longas horas.
Os dois únicos parlamentares críticos da indicação foram Álvaro Dias (PSDB-PR) e Pedro Simon (PMDB-RS). “O governo quer estatizar o STF”, bradou o senador paranaense, que errou feio o prognóstico sobre a atuação do juiz, que foi, afinal, admitido com os votos favoráveis de 58 senadores. E foi ali mesmo, naquela sessão, que se apresentou o Dias Toffoli que conhecemos hoje.
“Meu compromisso é com a Constituição”, jurou o futuro ministro diante do plenário do Senado. “Minha ligação com o PT é uma página virada!”, exclamou, para uma plateia incrédula, que logo saberia quem, de fato, era aquele jovem advogado. Ninguém sequer sonhava com tanta independência, especialmente, os fiadores de sua indicação.
Mr. Hyde
Não demorou até que Dias Toffoli começasse a atuar contra tudo o que os progressistas esperavam dele. Já em 2008, passou a agir como um camaleão institucional. A primeira grande decepção da esquerda foi quando disse que preferia chamar o golpe de 64 de “movimento de 64”, atraiçoando os companheiros de caminhada, especialmente, José Dirceu e José Genoíno, que esperavam justamente o contrário do novo ministro.
Não bastasse isso, seu pendor desmedido por militares acabou levando-o a designar um general para assessorá-lo, quando assumiu a Presidência do STF, dez anos mais tarde.
Em 2012, quando o caso do Mensalão chegou ao plenário da corte constitucional, ele fez exatamente o contrário do que governo e oposição esperavam: condenou Dirceu e Genoíno, seus ex-chefes, por corrupção ativa.
O PT ficou atônito. A condenação vinda de um ex-advogado do partido validou a tese da acusação. Apesar de ter absolvido os réus do crime de formação de quadrilha (o que reduziu as penas), a esquerda o viu como alguém que cedeu à pressão da mídia.
O carrasco
Lula foi preso em 2018 em meio a uma polêmica que dividiu a Corte: em que momento deveria se dar a prisão – no trânsito em julgado ou quando do julgamento em segunda instância? Toffoli assumiu uma posição de garantismo absoluto nas duas situações. Tentou um voto dissonante prevendo que a prisão só poderia se dar após manifestação do STJ, e foi voto vencido num tribunal presidido pela ministra Cármen Lúcia.
Mais tarde, em 2019, ele foi um dos que atuaram para livrar Lula da cadeia no julgamento das Ações Declaratórias de Constitucionalidade 43, 44 e 54.
Entre essas duas datas, vestiu o personagem de Mr. Hyde do STF ao inviabilizar a ida de Lula ao velório do irmão Genival Inácio da Silva, o Vavá, por quem o ex-presidente nutria grande afeição.
A primeira negativa foi da juíza lavajatista Carolina Lebbos. O caso chegou ao STF no plantão. Toffoli concedeu a ordem, mas impôs condições que, de fato, impediram o ato. Ele autorizou a saída de Lula, mas proibiu sua ida ao cemitério ou ao local do velório público. Lula deveria ser levado a uma unidade militar em São Bernardo do Campo. O corpo do irmão deveria ser trasladado até lá para que ele pudesse se despedir, numa cerimônia restrita apenas à família, sem imagens e sem imprensa.
A decisão de Toffoli saiu minutos antes do sepultamento, quando o corpo já estava baixando à sepultura. Ao saber das condições (encontrar o corpo do irmão dentro de um quartel), Lula recusou a saída. Segundo relatos de pessoas próximas, teria dito: “Não quero que o corpo do meu irmão seja levado para o quartel. Ele não é militar. Eu não vou me submeter a isso. Não vou negociar com o cadáver do meu irmão”.
De filho dileto da dinastia petista no Supremo, Toffoli se transformou, definitivamente, no monstro desalmado a ser execrado por sua desumanidade.
Um mês mais tarde, quem morreu foi o neto de Lula. Mas a frieza de Toffoli e a péssima repercussão do caso do velório de Vavá fizeram com que a própria Carolina Lebbos autorizasse a saída dele da carceragem de Curitiba para enterrar a criança. E tudo foi feito de maneira a evitar a intervenção do STF, cujo presidente já havia demonstrado que não tinha a menor sensibilidade.
Mas sua capacidade de provocar sofrimento e surpresas terríveis não parou por aí. O jornalista Florestan Fernandes ficou chocado quando Toffoli impediu que Lula fosse entrevistado enquanto preso. A entrevista havia sido permitida por outro ministro do Supremo, Ricardo Lewandowski, e Toffoli passou por cima da autorização concedida pelo colega como um trator.
O soberbo mimado
Toffoli passou a ser chamado de tudo, menos de santo, pela esquerda brasileira. Nada do que ele havia determinado parecia fazer sentido à luz de sua própria história. O que não se sabia era que as tentações oferecidas a quem tem posições de poder poderiam calar fundo na alma do ministro mais jovem do Supremo Tribunal Federal. É nesse contexto que surge o elo entre Marília, o Resort Tayayá e o STF.
A trajetória de Dias Toffoli e sua família, originária de Marília (SP), cruza-se de forma recorrente com o município paranaense de Ribeirão Claro, situado a duas horas dali. O ponto de contato é o Tayayá Aqua Resort, empreendimento às margens da represa de Chavantes, que se tornou um nó central para onde convergem laços familiares, política local, reestruturações empresariais e decisões da mais alta Corte do país.
A conexão pública de Toffoli com o resort remonta, no mínimo, a 2017. Naquele ano, ao receber o título de cidadão honorário de Ribeirão Claro, o decreto legislativo não apenas exaltou sua carreira jurídica, mas citou explicitamente seu apoio à implantação do Tayayá, tratando-o como vital para o turismo local.
Dois anos depois, em dezembro de 2019, o ministro retornou à cidade para inaugurar um Fórum Eleitoral batizado com o nome de seu pai, Luís Toffoli. A viagem, feita em aeronave da FAB, gerou polêmica na imprensa: após a solenidade oficial, o magistrado estendeu a estadia para um fim de semana de lazer no resort.

A entrada da família e o Banco Master
Em dezembro de 2020, a relação tornou-se societária. Por meio de uma holding, dois irmãos do ministro – incluindo José Carlos Dias Toffoli, então cônego em Marília – compraram 33,3% do resort por R$ 370 mil. A entrada do padre no negócio resultou em seu afastamento das funções religiosas pela diocese. O valor da compra chama atenção pela disparidade com o porte do negócio e os investimentos futuros de R$ 20 milhões. Em 2021, o restante do capital foi adquirido por Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.
Essa conexão ganha peso histórico ao notarmos que Toffoli, tempos depois, assumiria no STF a relatoria do processo de liquidação do Banco Master, tomando para si decisões que, usualmente, tramitam em instâncias inferiores. Decisões heterodoxas que, mais uma vez, ninguém conseguiu entender.
Em dezembro de 2023, ele suspendeu uma multa bilionária da J&F no valor de R$ 10,3 bilhões. Também anulou provas da Odebrecht, criando jurisprudência usada pelos irmãos Batista para contestar acordos de leniência.
Curiosamente, há cerca de dois anos, a cota que pertencia aos irmãos de Toffoli no Tayayá foi vendida para duas empresas controladas por Paulo Humberto Barbosa, advogado goiano apontado como interlocutor da J&F. Embora distintas no papel, as empresas funcionam como braços de um mesmo grupo no resort.
O voo e a blindagem do processo
O vínculo do ministro com o local não cessou nem com a saída formal dos irmãos. Em setembro de 2024, Toffoli viajou ao resort num jato da Transportes Aéreos Piracicaba (cujos donos são investigados por elos com o PCC). A denúncia foi do piloto da aeronave, Mauro Mattosinho, em entrevista exclusiva ao ICL Notícias.
Em novembro de 2025, aceitou uma carona no jatinho de um lobista bolsonarista que cedeu o avião ao advogado Augusto Botelho de Carvalho para assistir, em Lima, capital do Peru, à final da Copa Libertadores. Apenas quatro dias após essa viagem, em 3 de dezembro, Toffoli avocou o processo do Banco Master para o Supremo. Adotou medidas drásticas: decretou sigilo total, criticou a Polícia Federal, lacrou provas e nomeou peritos de sua confiança para análise exclusiva do material. A concentração inédita de poderes investigativos no gabinete do relator levanta a questão: o que haveria nas evidências da PF que exigiria tamanho controle e sigilo?
Logo depois, vazaram vídeos em que Toffoli aparece numa área privativa do resort paranaense, recebendo, com ares de dono da casa, o banqueiro André Esteves. O garoto de Marília virou um figurão da República, dado a grandes regabofes e cercado de gente sedutora e sediciosa.
Apesar disso tudo, há quem ainda acredite que esse comportamento faustoso não significa nada, pois tudo estaria ainda aquém da linha do comprometimento ético. Uma dessas vozes é a do advogado criminalista Antônio Carlos de Almeida Castro, tão importante no aval às primeiras indicações de Toffoli.
Segundo Kakay, o que ele está fazendo agora é apenas tentar impedir uma reedição tardia da Operação Lava Jato, que tanto mal causou ao Brasil. Kakay não fala sobre os indícios de abusos, fixando-se na atuação do ministro durante o processo avocado do Banco Master.
Outra voz importante é a do advogado criminalista Bruno Salles, que concorda com os argumentos de Kakay de que ele estaria apenas zelando pelo garantismo.
Mas há vozes que veem com estranheza o comportamento do ministro – principalmente os indícios de que ele teria usado os próprios irmãos como laranjas para ocultar o verdadeiro dono do resort Tayayá, que seria ele mesmo, na visão de seus desafetos e críticos.
Aos movimentos erráticos do ministro corresponderam outros do atual presidente do STF, Edson Fachin. Depois de interromper as férias precocemente para tentar atalhar a crise em que Toffoli enfiou o STF, Fachin tem dado declarações imprecisas, até mesmo contraditórias, sobre a atuação do colega.
Primeiro, o defendeu de maneira fervorosa, chegando a culpar a imprensa pela divulgação dos negócios privados do colega paulista. Depois, afirmando que o processo do Banco Master deve voltar à instância originária, a Justiça Federal do Distrito Federal, praticamente desautorizando a avocação por Dias Toffoli.
Só o futuro dirá quem tem razão – se as suspeitas que pesam sobre ele são levianas ou não, ou se, de fato, os movimentos de Toffoli merecem a atenção dos órgãos de correição. Se depender de quem o indicou, o presidente Lula, Toffoli deve deixar o STF. A desonra coloca um carimbo de suspeição na testa do juiz, mas não encerra o assunto.
Ela, no entanto, turva o ambiente institucional, o que aumenta a desconfiança e também as chances de uma ação de retaliação da extrema direita, que quer porque quer encontrar um caminho para impedir ministros do STF e macular o Judiciário brasileiro em desfavor da democracia inaugurada pela Constituição de 1988.
Seja lá o que for que vier a acontecer, parece certo que haverá mudanças no futuro – e algumas delas deverão ser creditadas (ou debitadas) à atuação extravagante de Toffoli.