É importante refletir sobre um dado da pesquisa que indica maior proximidade com a direita entre pessoas de menor renda e escolaridade, enquanto os estratos mais ricos e escolarizados tendem a se identificar mais com a esquerda. Em primeiro lugar, é preciso destacar que esse não é um fenômeno isolado do Brasil, mas parte de um movimento mais amplo de reorganização política observado em diversas partes do mundo, marcado pelo crescimento da direita e da extrema direita em contextos de insegurança econômica, precarização do trabalho e crise de representação política.
O avanço da extrema direita está diretamente ligado à crise do neoliberalismo e à incapacidade dos sistemas políticos tradicionais de oferecer respostas materiais ao sufoco vivido pela população diante da carestia, da alta dos preços, da precarização dos serviços públicos e do aumento do custo de vida. Da Europa aos Estados Unidos, passando pela América Latina, setores populares migraram para projetos autoritários não por ignorância, mas sobretudo por frustração. A extrema direita aposta na exploração do sentimento de abandono, oferecendo pertencimento, identidade e uma promessa de ordem e progresso em um mundo cada vez mais instável e inseguro.
No Brasil, a esquerda, nas últimas décadas, apostou fortemente em políticas de transferência de renda, que se consolidaram como uma das principais respostas à pobreza. Esses programas tiveram impacto real e inegável na redução da miséria. No entanto, sua insuficiência tornou-se evidente diante do encarecimento do custo de vida, da informalização do trabalho e da dificuldade de acesso a serviços públicos de qualidade. Para muitos dos mais pobres, a experiência cotidiana é a de uma vida “no aperto” e de um futuro profundamente incerto. Nesse cenário, a promessa de “proteção” do Estado perde força diante do desejo de autonomia, reconhecimento e prosperidade.
É nesse vácuo que a direita avança, articulando discursos de empreendedorismo, mérito e modernidade. Por meio de líderes políticos, influenciadores digitais e lideranças religiosas ligadas à chamada teologia da prosperidade, essa narrativa oferece um sentido moral à vida econômica, valorizando esforço, disciplina e fé, e se conecta diretamente às aspirações de quem quer melhorar de vida. Em contrapartida, a esquerda aparece, muitas vezes de forma equivocada, associada à ideia de manutenção da pobreza, reforçando a percepção de que sua proposta se limitaria a administrar a escassez e repetir fórmulas já desgastadas. Para além do aspecto discursivo, há também um elemento concreto: o ajuste econômico e a lógica fiscal vigente não abrem espaço para a prosperidade que grande parte da população almeja; não há margem para sonhar.

Diante disso, as lideranças de esquerda precisam decidir como desejam se apresentar e o que pretendem defender. Não parece haver mais espaço para uma postura de mera gestão do Estado que privilegia os de cima ou para a defesa de ajustes que inviabilizam políticas públicas à altura das urgências enfrentadas pela população. A centralidade do trabalho, da renda e da mobilidade social, o que passa necessariamente pelo enfrentamento aos privilégios, precisa ser retomada no vocabulário e na prática da esquerda. Para quem vive na informalidade, no subemprego ou no limite da sobrevivência, parte do discurso progressista soa abstrato, distante ou excessivamente moralizado. A direita, ao contrário, comunica-se de forma simples, emocional, oportunista e direta, ainda que baseada em falsas oposições.O desafio da esquerda não é apenas resistir, mas se reconstruir. Isso passa, em primeiro lugar, por atualizar seu programa econômico: colocar no centro o combate à precarização, a valorização do trabalho, políticas de crédito popular, apoio real aos pequenos empreendedores, redução do custo de vida e garantia de acesso a bens básicos como moradia, transporte e energia. Prosperidade não pode ser um tabu; ela precisa ser disputada como um projeto coletivo, e não abandonada à retórica individualista da direita.
Em segundo lugar, é fundamental recuperar uma comunicação que dialogue com a experiência concreta das pessoas. Falar de futuro precisa significar falar de emprego, renda, segurança e dignidade no presente. Isso exige reconhecer valores como esforço, trabalho e fé, sem ceder ao moralismo excludente, além de aprimorar as ferramentas de comunicação, debate e mobilização popular.
Por fim, a esquerda precisa reconstruir vínculos sociais. Sindicatos, associações de bairro, igrejas, cooperativas e redes locais são espaços onde a política se torna vida cotidiana. Em momentos-chave de consolidação de ideias e de mobilização social, o enraizamento territorial é peça fundamental para fortalecer referências e lideranças de esquerda.
A pesquisa não deve ser vista como um fracasso definitivo, mas como uma encruzilhada. Ela revela que a disputa política contemporânea é, ao mesmo tempo, material, simbólica e afetiva. Trata-se do reflexo de um momento internacional e de um fenômeno histórico de esgotamento dos projetos que apostam apenas na administração do sistema. Recolocar a esquerda como horizonte de prosperidade compartilhada talvez seja o passo decisivo para reconectar projeto político e maioria social.