Carta ao leitor – Manual prático para entender o Brasil

Pesquisa desmonta atalhos, desafia slogans e expõe um Brasil que pensa, sente e decide de forma muito menos previsível
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Há pesquisas que confirmam o óbvio. E há pesquisas que nos obrigam a parar, respirar e admitir: o país é mais complexo e mais contraditório do que nossas bolhas permitem enxergar.

A grande pesquisa nacional encomendada pelo ICL, realizada pela Agora Consultores, faz parte desse segundo grupo. Não é um levantamento feito para agradar confirmações de viés e nem para reforçar certezas confortáveis. Ao contrário: ela desmonta atalhos, desafia slogans e expõe um Brasil que pensa, sente e decide de forma muito menos previsível do que o debate público costuma admitir.

Algumas conclusões saltam aos olhos.

Primeiro: “o Brasil não está radicalizado como o barulho das redes sociais sugere”. A maioria dos brasileiros rejeita extremos, desconfia de soluções messiânicas e prefere respostas práticas a discursos inflamados. Há medo do autoritarismo, sim – mas também há cansaço da política performática conhecida como “lacração”.

Segundo: “a desigualdade é percebida como injustiça estrutural”, não como uma fatalidade. Mesmo entre grupos conservadores, aparece com força a ideia de que o jogo econômico é viciado, que poucos ganham sempre e muitos ficam presos num esforço sem recompensa. Isso diz muito sobre por que discursos antissistema continuam encontrando terreno fértil, coisa que a direita sabe muito bem como aproveitar.

Terceiro: “valores morais não caminham automaticamente com posições econômicas”. O Brasil que emerge da pesquisa é capaz de defender pautas conservadoras no costume e, ao mesmo tempo, exigir Estado forte, políticas públicas e proteção social. A caricatura do “povo liberal na economia” simplesmente não se sustenta.

Quarto: “há uma profunda crise de confiança nas elites”, sejam elas políticas, econômicas ou midiáticas. Não se trata apenas de rejeição a partidos ou governos, mas de uma sensação difusa de que quem decide não vive as consequências daquilo que é decidido. Esse abismo ajuda a explicar tanto o voto de protesto quanto o desencanto democrático. A confusão se dá na cabeça das pessoas porque, no fim do dia, se a democracia expressa esse jogo viciado, então ela não presta.

Quinto: “o futuro é visto com apreensão, não com esperança”. O medo de cair – social, econômica e simbolicamente – é mais presente do que o sonho de ascender. Esse dado deveria soar como alarme para qualquer projeto político que se pretenda majoritário. Vivemos de fato uma era de desesperança. Se até os anos 2000 as pessoas acreditavam que seus futuros marchavam para o dia de amanhã ser melhor que o de hoje, agora vemos que as coisas não estão mais como estavam.

A força dessa pesquisa está justamente aí: ela não entrega respostas fáceis, nem aponta salvadores da pátria. Ela oferece algo mais raro e mais urgente: um espelho honesto do verdadeiro rosto do Brasil. Debates acalorados, velhas e novas teoria, salvadores da pátria… nada disso se comunica com a população sem levar em conta que o jogo de chavões e clichês acabou. E sem encarar esse espelho, qualquer análise sobre 2026, democracia, extrema direita ou reconstrução nacional estará condenada ao erro.

Por isso, o convite é simples e necessário: leia a pesquisa. Com calma. Sem torcida. O Brasil que ela revela pode não ser confortável – mas é o Brasil real. E ignorá-lo sempre cobra um preço alto.

 

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O estudo consiste em uma pesquisa de opinião pública cujo universo abrange pessoas com 16 anos ou mais na República Federativa do Brasil, realizada por meio do Painel on-line da Ágora Consultores. Foi adotado um desenho amostral estratificado por Unidade da Federação (UF/Estado), com cotas populacionais conforme dados censitários e aplicação de cotas cruzadas por sexo, faixa etária e zona/área, assegurando consistência e equilíbrio na composição amostral. A amostra totalizou 9.497 entrevistas efetivas, com nível de confiança de 95% e margem de erro amostral de ±1,0 p.p. para distribuições simétricas. Como etapa adicional de robustez, a base foi ponderada e calibrada por sexo, idade, escolaridade e áreas, e submetida a procedimentos de controle de qualidade e consistência, incluindo validações de respostas, identificação de duplicidades, checagens de coerência interna e análise de tempo de resposta. A coleta foi realizada entre 17 e 23 de novembro de 2025, sob responsabilidade técnica da Ágora Consultores.

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