Carta ao Leitor — Michelle aposta seu futuro eleitoral na articulação com Gilmar e Moraes

O argumento é 'humanitário', mas a estratégia é puramente política
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Michelle Bolsonaro decidiu entrar em campo. E entrou pelo único lugar onde o bolsonarismo ainda acredita que as coisas se resolvem: Brasília, portas fechadas, conversas reservadas, pedidos diretos e Jair fora da cadeia.

Nos últimos dias, ela se reuniu com Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, informações confirmadas pelos ICL. O argumento foi “humanitário”. A estratégia, no entanto, é puramente política.

Michelle pediu que Jair seja enviado para casa, em prisão domiciliar. Detalhou ao ministro Alexandre de Moraes, conforme apurado pelo ICL, as condições de saúde do marido. O ministro teria ficado impressionado com os detalhes relatados pela esposa, assim como teria pouca resistência à Michele por ser ela, entre os Bolsonaro, quem menos se dedica a atacar Alexandre.

A transferência de Jair Bolsonaro para a Papudinha, uma cela com melhores condições, é fruto dessas conversas. Quem articulou o encontro com Moraes foi o deputado Altineu Côrtes.

Nada disso é trivial. No bolsonarismo, qualquer gesto que aproxime Jair de casa é ouro político. É capital simbólico puro. Há articulação e há disputa interna. O que está em jogo é quem herda o bolsonarismo em 2026.

As pesquisas recentes não ajudaram a dupla Michelle e Tarcísio, o desejo na urna de muita gente, do centro para a direita extrema. O cabeça de chapa seria ele, mas estamos ainda em janeiro e as águas estão sujas. Michele seria a vice perfeita: mulher, evangélica, esposa de um “preso político” (esse é o produto que se tentará vender no supermercado eleitoral).

Os números vieram frios para a dupla: Flávio Bolsonaro apareceu mais bem posicionado na Quest e segue pontuando nas pesquisas internas encomendadas por sua pré-campanha. O resultado abriu ainda mais uma fratura que já vinha se formando: quem fala em nome da extrema direita quando Jair está fora do jogo?

Michelle sabe que mandar Jair para casa seria uma vitória gigantesca dentro do campo bolsonarista. A militância quer uma coisa acima de todas as outras: ver o ex-presidente fora da prisão. Entregar isso seria, para ela, mais do que um “gesto humanitário”, seria um feito político. Um selo de liderança diante de uma militância que vê em parte dos bolsonaristas de ocasião apenas urubus rondando uma carniça política em busca de votos. “Soltar” Jair, neste contexto, é uma vitória suprema com os milhões de extremados.

Se a transferência de votos de Jair para Flávio já se mostrou possível, a dupla Tarcísio–Michelle poderia oferecer algo ainda mais poderoso: não apenas a continuidade do projeto, mas a promessa cumprida da libertação antes de qualquer eleição. Se Flávio promete soltar o pai caso eleito, Michele entrega a soltura antes de qualquer questão. Um presente direto à base, no momento em que o bolsonarismo começa a se devorar por dentro.

Nas redes, os bolsonaristas mais radicalizados dizem em voz alta o que antes sussurravam: o movimento virou um antro de traidores de Jair Bolsonaro. Muitos políticos já não falam mais em soltura. Alguns, inclusive, parecem torcer para que Jair permaneça preso – um mártir fixo, imóvel, mas útil eleitoralmente no papel de mártir. Flávio, tentando vestir o figurino de “moderado”, fala cada vez menos sobre a liberdade do pai.

É nesse vazio que Michelle tenta avançar. Se conseguir tirar Jair da prisão, poderá se apresentar como fiadora do impossível. E, a partir daí, negociar seu lugar: vice de Tarcísio ou até cabeça de chapa, se as pesquisas permitirem.

Nada está decidido. Mas uma coisa já ficou clara: no bolsonarismo, a disputa não é mais sobre o país. É sobre quem controla onde Jair Bolsonaro dorme na próxima noite.

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