Prognósticos (alvissareiros) para o eletrizante ano que se aproxima

Extrema direita tende a naufragar no mar de ódio que criou — Lula pode ser reeleito em 1º turno
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O extenso calendário político de 2026, ano em que teremos eleições gerais mais uma vez (será a 9ª desde a promulgação da Constituição de 1988), começa formalmente na 5ª feira, 8 de janeiro. A data assinalará o aniversário de três anos da Democracia e da maturidade institucional brasileira contra as iniquidades e as boçalidades da extrema direita e de seus satélites aderentes ao bolsonarismo, que havia sido derrotado nas urnas em 2022.

As equipes de marketing e de ação política do Palácio do Planalto e do Partido dos Trabalhadores irão se unir em atos simbólicos em Brasília e nas redes sociais para marcar o aniversário do golpe de Estado dado e derrotado (e já investigado, julgado e sentenciado pelo Supremo Tribunal Federal) com pronunciamentos duros, mensagens estruturadas e ao menos um ato prático: a divulgação do veto presidencial integral ao famigerado PL da Dosimetria.

Depois do Carnaval, entre fevereiro e março, o Congresso Nacional deverá se reunir para derrubar o veto, mas aí a agenda eleitoral terá caminhado algumas casas e, talvez, a derrubada do veto não seja favas contadas como é hoje.

Mapa do tesouro

Em março, no dia 10, na 1ª Turma do STF, começa o julgamento de três deputados acusados de desvios, corrupção, peculato e até mesmo de autoria intelectual num crime de morte, que tem como pano de fundo o Orçamento Secreto.

Josimar Maranhãozinho (PL-MA), Pastor Gil (PL-MA) e Bosco Costa (PL-SE) respondem a uma ação penal por corrupção passiva e organização criminosa por cobrarem 25% de “taxa de retorno” das emendas ao Orçamento da União, que indicavam para desembolso por meio das modalidades de “Emendas Pix”, “emendas individuais” e “emendas de Comissão”.

Segundo o Ministério Público e o Tribunal de Contas da União, os parlamentares usavam um agiota conhecido como “Pacovan” para receberem a “taxa de retorno” ali na frente e fazerem com que ele tratasse de cobrar as empreiteiras e fornecedores envolvidos no caso. Pacovan foi assassinado em agosto de 2024 e as planilhas onde o agiota anotava as comissões vieram à tona.

O julgamento da trinca do Partido Liberal – o mesmo que, até a última semana de 2025, era liderado pelo deputado fluminense Sóstenes Cavalcante, aquele que escondia R$ 470 mil em dinheiro vivo no armário do flat onde morava – será o primeiro evento jurídico diretamente relacionado a julgamento de desvios de emendas do Orçamento da União.

Há 80 parlamentares, deputados e senadores, com os gabinetes sob escrutínio do Ministério Público, do TCU e da Corregedoria Geral da União por suspeitas de irregularidades no manejo de emendas orçamentárias.

Mariângela Fialek, funcionária da Câmara dos Deputados ligada ao ex-presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL) e ao sucessor dele, Hugo Motta (Republicanos-PB), negocia com a Procuradoria Geral da República a possibilidade de dar o mapa do tesouro dos desmandos e descaminhos orçamentários à Polícia Federal em troca de transações penais.

O andamento das ações de investigação sobre o despudorado e pornográfico Orçamento Secreto, uma erva daninha da política brasileira plantada em Brasília pelo ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, criador das “emendas impositivas”, e cultivada por Arthur Lira em razão da inépcia administrativa e do despreparo gerencial de Jair Bolsonaro, irá se converter na maior marca política do 1º semestre do ano eleitoral de 2026.

Luís Mariângela redes sociais
Mariângela Fialek, ligada a Arthur Lira e Hugo Motta (Reprodução/LinkedIn)

No ano que entra, as modalidades de falta de transparência e desvios orçamentários, como vimos ocorrer de 2016 para cá, não ocorrerão mais. Isso é, já, mérito da forma como o ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, conduz o julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 854. Os ecos dela irão redesenhar a disputa nos estados e deverão expor grandes esquemas nos rincões do país. Há potencial disso para modificar bancadas e oxigenar o ambiente. A eleição será no 2º semestre e os resultados dela serão o grande legado desse eletrizante ano novo que tanto aguardamos.

No amálgama das incompetências da extrema direita com o despreparo da “centro direita” ou daquilo que um dia tivemos e que conhecíamos como “direita democrática”, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vê serem abertas as cortinas de uma campanha eleitoral que, pela primeira vez, podem levá-lo a vencer a disputa presidencial ainda em primeiro turno. Sim, este é o cenário mais provável no momento. O piso eleitoral do ex-sindicalista subiu dos históricos “quase 30%” para sólidos “mais de 42%”.

Há uma estreita faixa de cerca de 10% dos eleitores brasileiros, os quais integram o bloco daqueles que não se identificam nem como “lulistas” nem como “bolsonaristas ou aderentes às maluquices do bolsonarismo”, que decidirá a eleição.

No momento, seis em cada 10 votos dessa turma tendem a ir para Lula. Isso é suficiente para fazê-lo vencer em 1º turno, por uma margem tão estreita quanto aquela que lhe deu o terceiro mandato em 2022, enfrentando o Exército e a caneta obscurantistas de Jair Bolsonaro em seu esplendor de ilegalidades golpistas.

Fraturadas, desunidas, escorraçadas pelos processos jurídicos que enfrentou e que tinham por missão enquadrá-la nos moldes da institucionalidade brasileira, a direita e a extrema direita passam por momentos de exaustão de popularidade.

Trinca de apostas

Foi a horda de malucos transtornados pelos líderes da organização criminosa conhecida como “núcleo crucial golpista”, julgada e condenada no STF, que construiu esse cenário tão alvissareiro para o presidente Lula e para a esquerda brasileira.

Não era projeto de Lula, em 1º de janeiro de 2023, quando tomou posse de seu 3º mandato, disputar nova reeleição agora em 2026. Ele estava determinado a reunificar o país em torno de um projeto nacional desenvolvimentista e de uma agenda pacificadora. Porém, os atos golpistas de 8 de janeiro 2023 e o entulho do desmonte institucional, promovido pelo consórcio golpista de Michel Temer com Jair Bolsonaro, obrigaram-no a reorientar a bússola do próprio futuro. É por isso que Lula é candidato ao 4º mandato.

Vencer o golpe de Estado dado naquele 8 de janeiro de há três anos mudou completamente o plano de governo inicialmente traçado. Tornou-se essencial enfrentar as raízes golpistas deformadas das Forças Armadas e cortar as linhas de alimentação financeira dessa “Orcrim”, sufocando a capilaridade delas em todo o território nacional. O inquérito dos atos democráticos e, depois, as investigações em torno do planejamento e da execução do 8 de janeiro cuidaram exemplarmente disso.

Em paralelo ao trabalho extenuante da Procuradoria Geralda República, da Polícia Federal e do Supremo Tribunal Federal, o governo federal empreendia uma exaustiva reconstrução do arcabouço institucional do Estado brasileiro. Temer e Bolsonaro o destruíram em nome de interesses privados. Essa reconstrução dispersou energias, retardou o surgimento de resultados palpáveis das ações administrativas, mas consolidou a liderança do presidente Lula dentro de seu próprio campo político e ideológico.

Não sendo possível fazer tudo ao mesmo tempo, o ex-sindicalista, comandante inconteste do espectro iluminado da sociedade brasileira, adiou a formatação de um sucessor que seja capaz de tocar as coisas adiante mais ou menos da forma como ele toca. Lula colocou três atores mais próximos de si e da trinca pretende sacar o nome que gostaria de ver em sua sucessão em 2030. São eles: Fernando Haddad, ministro da Fazenda; Geraldo Alckmin, vice-presidente; e Flávio Dino, ministro do STF.

O PT raiz desgosta do conjunto todo. Porém, vê com mais parcimônia… Alckmin! Mais do que Fernando Haddad. Dino só preserva a simpatia dos petistas de espírito realmente mais elevado. Os três se dão muito bem entre si e integrariam equipes um do outro sem dificuldades. Ao longo desse eletrizante 2026, estejamos de olho nessa trinca. Ela é o futuro cheio de alvíssaras que será construído no presente sobre o qual devemos nos deter.

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