E se as eleições americanas fossem 15 dias antes?

Trump chega enfraquecido às midterms, que acontecem logo após segundo turno no Brasil
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Alguma coisa acontece … tanto na mente como no coração dos americanos. Vamos começar pelas mentes. Ficou bem mais caro viver na terra do Tio Sam desde março deste ano. Muito mais. Quanto ao coração, a importância de “se sentir americano” ficou acentuadamente, digamos, desidratada. Tudo isso não é que vai aparecer nas eleições de meio de mandato, as mid terms de 3 de novembro. Já apareceu nas pesquisas sobre o que o eleitor pensa de Trump e de como ele pretende votar.

Na primeira semana de outubro, a grande mídia dos Estados Unidos deu destaque a uma bem respeitada carta de análise política, o Cook Political Report, de perfil conservador, que sentenciou para surpresa geral: “Nos últimos três meses, a situação política do presidente Trump passou de muito impopular para tóxica e, agora, para radioativa”. O motivo da constatação era a repetida consolidação de diversas pesquisas mostrando como o eleitor vê e julga o governo republicano. Exemplo: a pesquisa Ipsos/Reuters, divulgada em 9/10, constatou que apenas 32% dos eleitores aprovam o governo Trump. É o mais baixo índice dos dois mandatos.

Nessa pesquisa, apenas 24% dos americanos aprovam a forma como Trump conduz a guerra do Irã! Ainda pior: só 17% aprovam o modo como o presidente conduz a economia! Em termos gerais, 44% dos eleitores inscritos dizem que votarão nos democratas e 35% nos republicanos. Quanto aos eleitores chamados independentes (não inscritos em um partido), 36% votam democratas e só 22% indicam voto em Trump – o restante permanece indefinido. Todas as demais pesquisas vão na mesma tendência.

Mãe de todas as trapalhadas

Há duas razões básicas para esses dados sobre esse “estado de espírito” do eleitor americano: guerra no Irã e inflação (que se entrecruzam) e o trato da questão imigratória. A economia, como sempre, vem primeiro. A decisão de fazer essa guerra no Oriente Médio (há meses esta guerra não é mais só no Irã) provocou duas explosões de preços com forte impacto nas expectativas e no desânimo: energia e habitação. Em 28/2, quando ocorreu o primeiro bombardeio no Irã, o preço médio do galão de gasolina (nos 50 estados) era de US$ 3,02. No dia 9/10, saltou para US$ 4,36, um terço a mais. Pior no diesel: 60% mais caro na mesma comparação.

O impacto inflacionário foi significativo, a começar pela comida. Nada comparável ao que aconteceu com o preço das hipotecas: as taxas de juro dos financiamentos imobiliários, com a explosão inflacionária, dobraram para mais de 7%! O maior aumento em duas décadas. O sonho de viver melhor na casa própria virou pesadelo para o americano de classe média baixa.

A raiva e o desanimo fizeram esse americano médio, com olhar fixo no seu mundo comunitário, pronunciar a pergunta óbvia: por quê? Petróleo era a resposta, com todas as consequências no bolso da população. Nesse contexto, surgiu a segunda pergunta óbvia desse eleitor assustado: essa guerra tem sentido? Valeu a pena atacar o Irã? Aqui, Irã cola com inflação e voto. Esse sacrifício todo foi bem ponderado pelo presidente Trump? Foi erro grave romper negociações e atacar o Irã? Fora o “como” foi feito: gerando completa e perigosa revisão do xadrez geopolítico do Oriente Médio.

O professor John Mearsheimer, da Universidade de Chicago, apresentou em vídeo (disponível no YouTube) análise demolidora de que os EUA foram à guerra por falsa informação, a de que o Irã teria armamento nuclear. Literalmente, não havia qualquer plano estratégico quanto à guerra e muito menos o que fazer com o provável fechamento do estreito de Ormuz. Ele mostrou também o que tudo isso significava para a oferta de petróleo. Nenhum dos quatro objetivos da declaração de guerra ao Irã foram alcançados: mudar o regime; acabar com o plano nuclear do Irã; limitar sua capacidade de mísseis e conter a ajuda iraniana ao Hamas, Hezbollah e Houthis. No vídeo, Mearsheimer definiu a guerra como a “mãe de todas as trapalhadas estratégicas”. Só que essa inútil trapalhada fez a inflação americana explodir.

Violência contra imigrantes e voto hispânico

Donald Trump and Zohran Mamdani meeting at the Oval Officew wikipedia
O prefeito de Nova York, Zohran Mandani, líder dos democratas, e Trump no Salão Oval (Foto: Divulgação)

Nas pesquisas, há outro motivo para a queda de Trump que não pode ser esquecido: a violência contra os imigrantes e o voto hispânico. Na trumpista Flórida, que em 2024 deu uma vitória ao republicano por mais de 60% dos votos, agora tem a principal cabo eleitoral de Trump lá, a deputada Maria Elvira Salazar, xingada e ameaçada por ele, após reclamar que a violência da repressão à imigração tinha ido “longe demais” e que seu eleitorado “hoje se sente traído”. Esse quadro é o mesmo em vários estados pêndulos com forte presença hispânica.

Os dois principais institutos que consolidam e agregam as diferentes pesquisas eleitorais nos EUA, o Silver Bulletin e o Real Clear Polling, avisaram: os democratas somam 18 pontos à frente na disputa das candidaturas a deputado. Os republicanos têm hoje maioria de só quatro votos nas 435 cadeiras em disputa na Câmara dos Representantes. O Cook Political Report aposta que os democratas recuperam a maioria na Câmara com uma margem entre nove e 19 assentos. Para o RealClearPolling, os democratas têm 50,6% das intenções de voto contra 42,3% dos republicanos

No Senado, o quadro não é muito diferente. A ponto de candidaturas consolidadas de republicanos assinarem resolução democrata pedindo “o fim da guerra do Irã”, como a do “duro” Rand Paul, do Kentucky, e da trumpista radical Susan Collins, do Maine. Dos cem assentos do Senado, 35 estarão em jogo. Estados símbolos do poder republicano estão em forte “revisão”. O maior deles é o muito conservador Texas, que desde 1988 não elege um senador democrata.

Porém, tudo deve mudar com a candidatura de James Talarico, democrata de perfil centrista e com forte apelo a uma agenda social. O seu slogan símbolo é “estou cansado de ser colocado contra meu vizinho”. É um crítico forte do “poder dos bilionários”. Não é diferente de Michigan, por exemplo, onde os democratas lançaram o médico Abdul el-Sayed, de 41 anos, filho de egípcios, integrante do grupo The Squad, os jovens progressistas que seguem o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e o liberal Bernie Sanders no partido. Tanto Talarico como Abdul estão de oito a 10 pontos a frente nas pesquisas. Eles sinalizam as duas linhas fortes dos democratas para a sucessão de Trump.

Outro impulso desses sinais da vitória democrata está no muito presente desânimo do mundo americano. Rana Foroohar, editora em Nova York do Financial Times, em artigo de 5/10, destacou pesquisa recente da Gallup mostrando que a porcentagem de americanos que consideram como “generalizada” a corrupção no governo subiu de 60%, em 2006, para 89% hoje. Notou também a perda de confiança na economia, em especial nos jovens: o desemprego entre 20 e 24 anos é o dobro da faixa entre 35 e 49. O mesmo Financial Times, observe-se bem, em artigo de Ian Hodgson (de 18/09), tinha notado, em tom muito crítico pela desfaçatez, como “bilionários fazem fila para financiar campanha dos republicanos”. Dá o nome e as surpreendentes quantias “doadas”.

Faltando duas semanas para as eleições de meio de mandato, que podem cortar muito as asas de Trump, o mundo americano está com este “estado de espírito”. Perder maioria no Congresso dos EUA significará outras definições para o Orçamento e outros limites para as “prioridades” da Casa Branca.

É curioso, mas o tempo desse acerto de contas político no mundo americano pregou uma peça para a nossa realidade brasileira. Lá, a eleição será uma semana depois do nosso segundo turno. Apenas pensar não custa nada. Se as pesquisas eleitorais nos EUA estão certas, a derrota do modelo Trump será contundente. Nessa possibilidade, será que aqui não transformaria votos, de adesão trumpista, em sisuda preocupação? Com todas as suas consequências.

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