E se a poesia for a resposta para a polarização?

Talvez nos falte apostar no encantamento — ou será que o sol na moleira me deixou naïf?
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Em duas semanas de férias no “meu país Nordeste”, a sensação de descanso não se deve apenas ao sol na cabeça e ao corpo boiando no mar transparente sob um céu muito azul. Desembarcada no primeiro fim de semana pra valer de campanha eleitoral, nas ruas de Recife, Olinda e João Pessoa, o clima era de Lula já ganhou.

Se bolsonaristas há – e não tenho dúvidas de que eles existam aos montes também lá –, são tão discretos que nem mesmo flyers estampam. Em Pernambuco, a acirrada disputa ao governo entre Raquel Lyra e João Campos divide o Marco Zero do Recife em animadas “barqueadas” de um frente à ostensiva panfletagem da outra, sem que nenhum dos grupos se atreva a exibir candidato à Presidência da República que não Lula.

No táxi rumo à vizinha Olinda, o motorista não se avexa em proclamar que o conterrâneo já está reeleito, declarando o voto às passageiras paulistanas, sem o menor receio de tomar uma invertida.

Na capital paraibana, num dos bairros mais chiques de João Pessoa, um grupo de ativistas animava a orla numa noite de sexta-feira, com bandeiras vermelhas ao vento. As mesmas que predominavam na tarde do dia seguinte, na festa ao ar livre que ocupa semanalmente a Praça Rio Branco, na região central da cidade, colorindo a sequência de shows de forró e samba que reúne locais e turistas no tradicional Sabadinho Bom.

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Sabadinho bom: festa animada no centro de João Pessoa (Foto: Divulgação)

Um respiro que durou até o exato momento do embarque para São Paulo, quando um grupo de pessoas cujo sotaque denunciava origem no interior paulista impôs a realidade sudestina.

“O que preciso fazer para essa fila andar? Declarar voto no Lula? Isso é racismo. Voto em quem quiser!”, bradou um homem branco, misturando alhos e bugalhos sobre o que seria descaso dos funcionários da companhia aérea pela suposta lentidão com que fluía a entrada da categoria prioridade.

Parte de um grupo de pessoas retornando de uma excursão a um balneário pernambucano, o homem seguiu nos impropérios em voz alta, sem o menor constrangimento, buscando entre seus pares sinais de cumplicidade. Voltando para casa, sentia-se livre para incomodar todo mundo ao redor.

Não fosse a paz conquistada em dias de sombra e água fresca, a vontade seria a de mandar à m****, reação obviamente desaconselhada por “N” razões, mas não de todo incompreensível.

Quatro dias depois, num bar em Ribeirão Preto, acompanhada de artistas que, como eu, estavam ali para participar da FIL (Feira Literária Internacional do Livro de Ribeirão Preto), maior evento do gênero no interior paulista , debatíamos sobre a impossibilidade de diálogos coerentes desde a ascensão da extrema direita.

Observando as mesas ao redor, na cidade onde Jair Bolsonaro recebeu 60% dos votos nas eleições de 2022, quantos teriam o mesmo comportamento do tiozinho do aeroporto do Recife? Por outro lado, nós, autoproclamados progressistas, estamos mesmo dispostos a despender energia tentando restabelecer tais conversas? Ou nos fechamos em nossas bolhas apontando o dedo para a “ignorância” alheia?

Com tantas denúncias e provas sobre os malfeitos dos Bolsonaro, por que não conseguimos virar o voto dos quase 40% da população que se dispõem a entregar o país novamente nas mãos da familícia no segundo turno das eleições de 2026?

Questionando meu próprio comportamento, pensei que talvez nos falte apostar no encantamento, como o fez a escritora estadunidense Tracy K. Smith. Professora na Universidade Harvard e vencedora do Prêmio Pulitzer, em 2012, pelo livro Vida em Marte (Relicário Edições), uma das vozes definidoras da poesia contemporânea, ela realizou, entre 2017 e 2019, um projeto itinerante com o apoio da Biblioteca do Congresso. Batizada American Conversations: Celebrating Poetry in Rural Communities (Conversas Americanas: Celebrando a Poesia nas Comunidades Rurais), a série de encontros tinha como objetivo introduzir conversas com pessoas de estilos de vida e sistemas de valores distintos.

A ideia, segundo Tracy, surgiu durante as eleições presidenciais de 2016, quando a campanha de Donald Trump deu início a uma “linguagem polarizada”. “O decoro foi abandonado e emergiu um vocabulário nacional direto, agressivo, alimentado por figuras públicas específicas, por tecnologias como smartphones, pelas redes e por podcasts, que reforçam crenças arraigadas e rejeitam visões divergentes. Nesse contexto, pensei: e se fizéssemos algo para reunir a população, partindo de outro lugar, com uma percepção diferente de nossa própria autoridade?”, disse Tracy, em conversa que tivemos em maio de 2025, quando ela participou do Festival Poesia no Centro, em São Paulo.

Tendo como ponto de partida a poesia, Tracy percorreu os rincões do país, lugares em que a maioria da população é branca e conservadora. “Visitei comunidades onde, em tese, as pessoas deveriam estar em confronto para criar esse espaço de abertura e de vulnerabilidade compartilhada lendo poesia”, contou ela. “Para mim, a poesia reafirma que você não está no controle. Mesmo como autora, me entrego a algo maior. Como leitor ou leitora, nos aproximamos dessa outra voz com amor, porque queremos escutá-la e compreendê-la. E se conseguirmos, essa voz não apenas se revelará, mas revelará algo sobre nós.”

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Tracy K. Smith: conversas com pessoas de diferentes estilos de vida e sistemas de valores (Foto: Domínio Público)

Nos dois anos dedicados à empreitada, Tracy apresentou textos de poetas estadunidenses contemporâneos sobre amor, perda, exílio ou, segundo ela, sobre “estar num país cuja língua não é a sua”. “Esses poemas nos permitiram tratar de todas as facetas da vida utilizando outro vocabulário. Houve quem dissesse: ‘Acho que também me senti incompreendido assim’ ou ‘Essa pessoa que parece ser imigrante vive algo que conheço’. Estávamos falando de cidadania, mas em termos mais humanos”, explicou.

Num dos encontros, no estado de Kentucky, Tracy leu poemas de sua autoria, compostos de trechos de cartas escritas por soldados negros e seus familiares ao governo dos Estados Unidos durante a Guerra Civil (1861-1865). Ao final, lembra a poeta, uma mulher branca, moradora de uma comunidade majoritariamente branca, se aproximou e disse: “Preciso ir até em casa pegar uma coisa para você”.

“Quando voltou, ela me entregou uma gravação e explicou: ‘Essa é a voz da minha avó recitando poemas e histórias com as quais cresceu. Mas quero que saiba que ela nunca teria desejado te machucar ou te ofender’. Percebi que aquela gravação carregava estereótipos raciais herdados por uma mulher branca do sul do país”, disse Tracy. “Ainda assim, essa estranha ouviu as vozes negras que eu havia trazido, pensou na avó e se deu conta de que existia uma barreira entre isso e minha aceitação espontânea. Na mente dela, senti que se iniciou um processo de abertura que dizia: ‘Nós, inclusive minha avó, precisamos repensar a forma como amamos e como nos vemos uns aos outros’.”

Após o fim dos encontros, no período de isolamento em consequência da pandemia de covid-19, Tracy se deu conta de como foi bem acolhida e recebida com tanta honestidade e coragem pelas pessoas com quem encontrou em sua turnê. “Por isso, defendo que precisamos de mais espaços onde possamos simplesmente estar juntos, livres dessa voz que sussurra aos nossos ouvidos: ‘lute, lute, lute’. Lutar não é a única coisa que sabemos fazer.”

Me lembrei desse papo enquanto assistia à intensa movimentação de pessoas na feira literária ribeirão-pretense. Quanta gente dali não se identificaria com a protagonista de Um Defeito de Cor, romance clássico de Ana Maria Gonçalves, uma das escritoras convidadas, mesmo vindo de uma realidade totalmente oposta? Talvez tanto sol na moleira tenha me deixado naïf, mas acredito que Tracy tenha razão.

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