Bolsonaro chama os filhos por código, como se fossem uma patrulha e não uma família.
Flávio é o “01”. Carlos, o “02”. Eduardo, o “03”. A nomenclatura, extraída do jargão de caserna que o patriarca nunca abandonou depois de posto para escanteio pelo Exército em 1988, sugere hierarquia, comando e prontidão. Quer nos fazer crer que há um plano, uma missão, uma função a cumprir. O problema do “01” é que, chegada a hora de provar a que veio no posto que ocupa – cadeira de senador da República, mandato de oito anos, prerrogativa de propor lei para 213 milhões de brasileiros –, ele simplesmente não chegou a lugar nenhum.
Flávio Bolsonaro está no Senado desde fevereiro de 2019. Apresentou, ao longo desses quase oito anos, 57 projetos de lei. Um foi sancionado. Um mísero e solitário projeto. Trata-se do PL 3.190/2023, que alterou a Lei 13.636 do Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado. Ajustou a nomenclatura das empresas participantes do programa e criou limites diferenciados de juros para operações de crédito. Texto técnico, de utilidade real, mas de proporções modestas. Mesmo assim, sancionado com vetos presidenciais, que ainda aguardam análise do Congresso.
É esse o legado normativo, depois de quase oito anos de mandato, do homem que o pai apontou como herdeiro do capital político da família e hoje reluta em admitir, mesmo depois da queda contínua nas pesquisas presidenciais, que talvez devesse ficar em casa.
A hereditariedade da vadiagem parlamentar
Produtividade legislativa nunca foi um assunto agradável para os Bolsonaro. O motivo é simples. Nunca houve produtividade a exibir. Jair Bolsonaro cumpriu 28 anos de mandatos como deputado federal, entre 1991 e o início de 2019. Apresentou 171 projetos de lei ao longo de sete legislaturas. Dois – escassos dois! – foram convertidos em lei.
Nunca liderou uma bancada partidária. Seu único registro de liderança formal, logo no primeiro mandato, foi o de vice-líder do nanico PDC, em 1991. Jamais presidiu comissão alguma, fosse permanente, fosse temporária. Circulou por comissões especiais como membro suplente ou, quando muito, como terceiro vice-presidente de colegiados que ninguém em Brasília sabe nomear de cor. Fez do plenário palanque, nunca ofício. Sua obra parlamentar coube, com folga, num parágrafo. Isso diz muito – ou tudo – sobre um homem que passou quase três décadas recebendo salário público para representar o povo brasileiro e usou o tempo para cultivar a antipatia como programa de governo.
O filho 01 repete a fórmula com uma fidelidade que beira o transtorno genético. Ambos tratam o mandato como um acessório da própria persona pública, nunca como instrumento de trabalho. Ambos confundem barulho com atuação, embate com proposta, provocação com pauta. A diferença é que Jair, ao menos, tinha a desculpa (ruim, mas existente) de ser um outsider raivoso do sistema, que dizia combater. Flávio não tem “outsiderismo” algum. É filho de presidente, é herdeiro de estrutura, chegou ao Senado com máquina, financiamento e sobrenome – e, ainda assim, produziu menos do que se poderia esperar até mesmo de um novato desavisado. A vadiagem, no caso dos Bolsonaro, não é falha de origem. É um método.
Se Flávio ao menos comparece ao trabalho com regularidade mediana, o mesmo não se pode dizer do irmão. Eduardo Bolsonaro, o “03” do clã, perdeu o mandato de deputado federal em 18 de dezembro de 2025, por decisão da Mesa Diretora da Câmara, depois de acumular 59 faltas injustificadas em sessões deliberativas – número muito acima do limite de um terço de ausências que a Constituição tolera antes de decretar a extinção do mandato. Eduardo está autoexilado nos Estados Unidos desde fevereiro do ano passado. De lá, articula sanções e ataques diplomáticos e comerciais ao Brasil em nome da defesa do pai.
O “03”, irmão do “01”, foi responsável por sanções da autocracia americana contra autoridades e instituições brasileiras. Ao ser formalmente destituído – e perder salário, verba de gabinete, auxílio-moradia e imunidade parlamentar –, publicou um vídeo dizendo que havia “atingido o objetivo”. Foi a confissão mais sincera que qualquer Bolsonaro já fez sobre o próprio mandato. O cargo público terminou sendo tratado como mero instrumento de vaidade familiar, descartável assim que cumpre a função de palanque, sem qualquer compromisso com quem o elegeu. Cassado por vadiagem, na linguagem seca que o caso pede.
O advogado das horas vagas
Enquanto os projetos de lei de Flávio Bolsonaro definham nas gavetas do Senado, ou inexistem, sua banca de advocacia prospera. Ele registrou escritório próprio em abril de 2021, no endereço da mansão de (declarados) R$ 5,97 milhões que comprou no Lago Sul de Brasília, com capital social de apenas R$ 10 mil. A administradora do escritório, que não é advogada, disse à imprensa que a firma tem cerca de dois clientes – entre eles, uma igreja –, mas que os contratos são de “valor considerável”. O senador fluminense chegou a informar à Justiça que a renda advocatícia o ajuda a pagar o financiamento bancário de R$ 3,1 milhões da própria mansão. Esta omissão só veio à tona depois, quando ele declarou a compra do imóvel.
É nesse ambiente de proximidade entre toga e mandato que Flávio Bolsonaro cultiva suas sociedades mais duradouras. Frederick Wassef, seu advogado desde os tempos da Alerj, tornou-se personagem central do caso das joias sauditas recebidas pelo governo de Jair Bolsonaro. Hoje é investigado pelo Ministério Público Federal no Rio de Janeiro, acusado por delegados da Polícia Federal de ter faltado com a verdade em depoimento sobre o episódio.

Willer Tomaz, chamado publicamente de “meu amigo” pelo próprio Flávio durante a CPI da Covid, em 2021, e visto ao lado do senador em viagem de jatinho particular para a Flórida em 2025, tornou-se alvo da Operação Sem Desconto da Polícia Federal, deflagrada em agosto de 2026 para apurar fraude bilionária contra aposentados do INSS – nas investigações, aparecem R$ 45,5 milhões em movimentações atípicas ligadas a ele.
No mesmo círculo de advogados que orbitam a política bolsonarista, opera Nelson Wilians, um dos maiores escritórios de advocacia do país, hoje alvo da Operação Arena da Polícia Federal por suspeita de lavagem de dinheiro e evasão fiscal ligada a casas de apostas esportivas, as famosas bets – episódio que ainda carece de comprovação mais sólida quanto ao grau exato de proximidade pessoal com o senador. Não é preciso provar conspiração para notar o padrão: o senador circula, profissional e afetivamente, entre homens que a Polícia Federal insiste em visitar em suas operações deflagradas nas alvoradas vorazes de Brasília, do Rio, de Minas Gerais, de São Paulo, do Nordeste e também de Mato Grosso e de Santa Catarina.
Uma legislatura sem Flávio Bolsonaro no Parlamento (perdendo a Presidência, como parece ser seu destino, encerrará o mandato de senador) não será ausência a ser sentida. Será profilaxia. Vamos sentir o período como um vazio sanitário parlamentar, um zero à esquerda, tão inútil é a presença do “01” do clã trágico na vida política nacional.