Doutrina Monroe
Num vídeo recente, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, anunciou que o domínio estadunidense sobre a América Latina não seria mais contestado. E, como sempre ocorre nessas ocasiões, invocou-se a Doutrina Monroe.
Mas o que é exatamente essa doutrina e por que se trata aqui mais de uma dissimulação malandra do que de uma declaração de princípios?
Vejamos.
Em 1823, o presidente James Monroe, em sua mensagem anual ao Congresso, reafirmou a condição de independências dos países das Américas e que, por isso, não seria aceitável esforço algum de recolonização da região por parte de potências europeias.
Na frase repetida à exaustão, encontra-se a síntese da Doutrina Monroe: “América para os americanos”. A advertência não era uma fórmula abstrata, muito menos desinteressada. Sua mais completa tradução não é nada neutra: América para os estadunidenses! De fato, depois da guerra com o México (1846/1848), os Estados Unidos se apoderaram, ou seja, roubaram aproximadamente metade do território mexicano.
Coube ao presidente do México, Porfirio Díaz, que criou o modelo do ditador que nunca deseja deixar o poder, governando de 1884 a 1911, o aforismo definitivo para definir o risco representado pelo vizinho poderoso: “¡Pobre México! ¡Tan lejos de Dios y tan cerca de los Estados Unidos!”
Desde então, o governo norte-americano se comporta como se as Américas, e especialmente a América Latina, fossem uma espécie de puxadinho geopolítico do crescente poderio dos EUA.
No século 19, contudo, a musculatura militar do futuro Império Ianque ainda não permitia aventuras bélicas sistemáticas; a guerra contra o México foi, antes, um conflito de fronteiras movido pela ambição norte-americana de expansão.
Foi somente na passagem para o século 20 que os Estados Unidos derrotaram uma potência europeia; em declínio, é verdade, mas ainda assim uma vitória que pode ser vista como um símbolo do início de uma era de intervenções militares mais desinibidas.
(Uma política de Estado – portanto.)
Corolário Roosevelt
A Guerra Hispano-Americana, travada em 1898, opôs Estados Unidos e Espanha, e foi motivada pela ambição norte-americana de controlar o processo da luta de independência de Cuba, que deu origem a uma guerra dos cubanos contra os espanhóis de 1868 a 1878. Os nacionalistas foram derrotados, mas deixaram clara sua determinação de seguir lutando. O grande ensaísta e poeta, José Martí, morreu nessa luta, em 1895, e tornou-se o farol do nacionalismo cubano.

Pois bem: no instante em que o movimento independentista caminhava para o triunfo, a Guerra Hispano-Americana transferiu a hegemonia da situação para os Estados Unidos, que passaram a exercer influência internacional. O espólio do conflito foi generoso: Porto Rico, Cuba, Filipinas e Guam passaram ou a ser controlados pelos norte-americanos ou a sofrer com sua presença dominante.
Pouco depois desse conflito, Theodore Roosevelt assumiu a presidência dos Estados Unidos, em 1901, permanecendo no cargo até 1909. Suas habilidades diplomáticas nunca se preocuparam com a sutileza. Em setembro de 1901, Roosevelt expôs pela primeira vez sua doutrina; denominada com rara sinceridade “Big Stick Diplomacy” – a diplomacia do “grande porrete”.
(Na cara dura: a lei do mais forte.)
A mensagem, brutal, não poderia ser mais cristalina e quase dispensa comentários. Importa aqui resgatar a consequência prática dessa nova doutrina, pois ela ajuda a esclarecer o alcance real da fala desarrazoada de Marco Rubio.
Refiro-me ao “Corolário Roosevelt”.
Em 1904, na “Mensagem Anual do Presidente ao Congresso”, Roosevelt atribuiu aos Estados Unidos o papel de “polícia” da América Latina, defendendo o direito (até o dever!) ianque de intervir militarmente em países da região que, porventura, atravessassem um longo período de crise econômica ou de instabilidade política.
(Law and Order – exatamente como num programa de televisão, que nem sequer tinha sido inventada nesse então.)
Entenda-se o contexto que serviu de pretexto para a desmedida ambição: em 1903, a Venezuela passou por uma crise de solvência e não pôde mais pagar sua dívida com credores europeus. Alemanha, Reino Unido e Itália reagiram militarmente e realizaram um duro bloqueio naval contra a Venezuela. Roosevelt soube aproveitar a oportunidade para anunciar o “Corolário Roosevelt”: só os Estados Unidos podem invadir um país da região. Destaque-se o acréscimo que ilumina o destempero de Donald Trump e Marco Rubio: em caso de prejuízo à atuação de empresas norte-americanas na região, o “Corolário Roosevelt” também poderia ser aplicado.
(Claro: Follow the money!)
É bem disso que se trata! Mesmo que os Estados Unidos sigam negando as aparências, disfarçando as evidências, o declínio do Império Ianque é visível, palpável na humilhação que atualmente lhes é imposta pelo governo iraniano. A América Latina é o território que lhes sobrou para, por meio da pirataria a mais desavergonhada, ainda tentar exercer algum poder imperial. Daí, a ameaça efetiva de intervenção nas eleições presidenciais brasileiras em outubro de 2026.
(“We are like pirates” – “Nós somos como piratas” –, declarou Donald Trump. Impossível não estar de acordo.)