Toda vez que a polícia sobe o morro, ouvimos a mesma ladainha: a operação foi armada para pegar “o chefe do tráfico”. Aconteceu de novo no Rio de Janeiro. Enquanto os mortos são enfileirados na praça, os nomes dos chefões mudam com o tempo: Fernandinho Beira-Mar, Nem, Marcinho VP, Peixão, Abelha, Pedro Bala, BMW, Gardenal. Você, certamente, ouviu alguns desses nomes no noticiário. Outros, não. E pouco importa. Eles logo serão esquecidos e substituídos por outros, como peças baratas de uma máquina. A manchete é sempre a mesma, há décadas. E também é sempre mentira.
A história de “chefe do tráfico” morando em favela se produz cada vez mais como uma farsa e uma distração conveniente. Enquanto helicópteros e blindados abrem fogo em vielas e becos, os verdadeiros chefes estão seguros – nas salas acarpetadas da Faria Lima, nos gabinetes de Brasília, nos escritórios de empresas insuspeitas, em bancos e fintechs, nas Assembleias Legislativas e nas Câmaras de Vereadores.